Aviação em 2016: Previsões do ‘Pai Raul’

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
E eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?

(“O Amanhã”, de João Sérgio – gravado pela Simone)

As bolas de cristal dos economistas dizem que 2016 nos fará ter saudades de 2015 – para vocês terem uma ideia do quão pessimistas eles estão. E, de fato, não há motivos para duvidar… Tudo parece caminhar para o abismo: a política, como ou sem o impeachment, se deteriora dia a dia; na economia se prevê mais recessão, mais inflação, mais desemprego e mais juros; a corrupção atinge até os cartórios, que agora deram para falsificar certidões de nascimento; o mar de lama literalmente corre pelo país; e o mosquito da dengue, que já trouxe um novo vírus recentemente, agora volta com a novidade do Zika Vírus, que ameaça as gerações futuras; dentre alguns dos sinais negativos os mais variados relativos ao ano que vem. E, especificamente na aviação, temos o fracasso antecipado da única possível boa notícia, o PDAR-Plano de Desenvolvimento da Aviação Regional, abortado no útero de uma SAC acéfala, já gerando demissões em massa em uma das únicas linhas aéreas verdadeiramente regionais do país.

Estamos vivendo a maior crise econômica desde o início dos anos 1990, no infame Governo Collor – isso já é consenso entre os economistas. Então, num momento “Eu nasci há dez mil anos atrás”, deixem-me relatar o que eu vi acontecer naquela época, já que acompanhei aquela crise de um ponto de vista privilegiado. Em março de 1990 eu era trainee do Citibank e cumpria meu estágio na mesa de open market do banco – o centro do centro do mercado financeiro naquele momento -, onde assisti pela TV ao discurso da então Ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, explicando o confisco de Cruzados Novos (NCz$). E, a despeito do péssimo momento em que vivemos, não há termo de comparação com o que aconteceu naqueles tempos: o Brasil esteve muito pior, podem acreditar.

O país, que já não tinha dólares (nossas reservas eram irrisórias) nem credibilidade internacional, enfrentava uma inflação na casa dos 80% ao mês, cerca de 3% por dia útil. Havia a perspectiva de uma quebradeira em massa nos bancos, e ninguém sabia qual instituição era saudável e qual estava falida. Corrupção? Bem… Estávamos saindo do Governo Sarney e entrando no Governo Collor: precisa explicar mais? Na saúde pública, o medo era da AIDS, sinônimo de morte certa, que parecia estar fora de controle, com uma pandemia iminente. Aí vem o tal do Plano Collor que confiscou todo o dinheiro da população, e as contas bancárias ficaram praticamente zeradas para todo mundo. Foi o caos, pelo menos nos três primeiros meses do Plano: a desorganização era completa, não havia referências de preços para nada, ninguém comprava nem vendia nenhum imóvel, veículo, ou nada que não fosse essencial à sobrevivência. Depois, deu-se um jeito, e as coisas voltaram ao estado anterior (que já era péssimo), mas o fato é que enfrentamos uma recessão de -4,3% do PIB em 1990. (Como comparação: neste ano, a recessão deve chegar a -3,5%).

Se você fosse um espectador daquele cenário, certamente não teria confiança alguma no futuro. Não havia nada naquela época (início dos anos 1990) que desse um mínimo de esperança para o cidadão brasileiro. Mas o que aconteceu, de fato, no final na primeira metade daquela década foi o oposto. Não vou entrar em detalhes políticos e econômicos por não ser este o espírito deste blog, mas o fato é que o PIB aumentou 4,9% em 1993, 5,9% em 1994 e 4,2% em 1995. A AIDS não explodiu, o nível de corrupção do Governo Itamar foi um dos menores da República, e ainda por cima fomos tetracampeões do mundo na Copa de 1994 (lembrando que na Copa anterior chegamos em 9° lugar). E tudo isso apesar das previsões catastróficas feitas em 1990 – inclusive pelos mais renomados profissionais do mercado, que estavam assistindo ao discurso da Zélia ao meu lado, na mesa de open do Citi.

Eu não estou com isto sugerindo que vamos sair da crise atual simplesmente porque conseguimos sair de outra situação complicada 25 anos atrás, longe disso! O que eu quis mostrar com o relato acima é que a recuperação de crises acontece sem que os “especialistas” consigam prever seu acontecimento com muita antecedência, isso é que é importante entender. Quem estava vivendo o período 1990-92 não conseguia enxergar a recuperação da economia em 1993-95. Depois que a recuperação aconteceu, aí sim apareceram os profetas dos fatos passados dizendo que aquilo era o que se poderia esperar, mas aí é fácil, né? Quero ver é quem tinha coragem de escrever que o Brasil iria se recuperar com os próprios NCz$ presos pelo Banco Central, sem condições de colocar gasolina no carro! É isto o que mais importa nesse artigo sobre as “Previsões do ‘Pai Raul’! Sem nenhum demérito às religiões afrobrasileiras, o fato é que o que dizem os “especialistas” sobre o futuro tem tanto valor quanto as previsões dos búzios – se é que me faço entender.

Mas apesar de toda imprevisibilidade acima referida, será muito difícil que 2016 seja um ano bom em termos de mercado de trabalho. Tomara que aconteça algo surpreendente que mude o rumo das coisas muito rapidamente, mas me parece que 2016 já nasceu morto – a dúvida é quanto a 2017 e além (e previsões de prazo tão longo no Brasil são praticamente impossíveis). Não é preciso gastar muita tinta para falar sobre a situação que o Brasil vive e explicar os motivos pelos quais 2016 não deverá ser um ano fácil – isso qualquer pessoa alfabetizada sabe. Mas, especificamente sobre a aviação, é necessário abordar (ou relembrar) alguns aspectos que poderão ajudar a entender o que está por vir:

  • Todos os pontos citados neste artigo explicando porque o mercado de trabalho da aviação geral deverá ser especialmente afetado pela atual crise continuam válidos.
  • Especialmente na asa rotativa, a situação se agravou em relação ao artigo acima citado, principalmente devido ao cancelamento de contratos no segmento off-shore – vide aqui.
  • Na linha aérea, as perspectivas também se agravaram – vide aqui.
  • O segmento de táxi aéreo continua ladeira abaixo, o de instrução idem, e somente o de aviação agrícola está se sustentando, numa tendência que já vinha aparecendo no relatório anual da ABAG – vide aqui.
  • Mudanças regulatórias:
    • RBAC-61: as mudanças no regulamentação de licenças e habilitações não irá criar demanda, mas deverá mudar a qualificação requerida para exercer a atividade profissional de piloto. É preciso ficar atento a isso: acompanhe esta categoria de posts do blog.
    • RBAC-91: a ANAC deverá regulamentar a operação compartilhada de aeronaves, o que poderá criar novas possibilidades de trabalho – vide aqui.
    • Checadores autônomos: outra novidade importante para 2016 – vide aqui.

Estes pontos são os que existem de concreto mesmo sobre o que deve acontecer em 2016 na aviação.

 

 

 

 

14 comments

  1. Lucas
    1 ano ago

    Caro Raul, Sou formando em ADM e Apos 16 anos trabalhando em instituição financeira, (por sinal uma ótima faculdade e experiência), fui em busca do meu sonho de “criança”- Ser Piloto. Desde 2012 comecei a aviação e conclui as primeiras etapas PPH,PCH,INVH, Graunds, IFR e infelizmente terminei em 2014, inicio do desaquecimento do mercado de trabalho em Geral. Isso devido a vários fatores, políticos, econômicos, Industriais… Investi na carreira meados de 120.000 , daria para comprar um terreno, carro, ou uma loja franquiada, ou sei la o q!… ocorre que fui em busca do meu sonho, e a única coisa que ninguém pode tirar da nossa vida é o CONHECIMENTO. Estudei igual a nunca tinha estudado na escola quando adolescente , foram noites e mais notes para passar nas provas . Lembrei-me que minha mae falava “estuda meu filho para ser alguém no futuro”, então, Hj sou Piloto e estou dedicado na aviação pelo caminho correto e digno. Não estou indo pelo lado dos “ESQUEMAS”que infelizmente ocorre em todo o nosso PAIS e modalidades, para compra de carteiras, horas, Graund, etc… Posso demorar 5 anos para conseguir um emprego, mas tenho certeza que será de cabeça erguida e com orgulho por competência!.
    Pois bem, estava me sentindo um passarinho preso na gaiola no tempo do banco. Quero deixar claro, que mesmo com esta Crise que ocorre e que se comenta, não irei parar nunca de determinar meu tempo a aviação, pois a partir daquele momento que mudei 100% de direção(rumo) em minha vida, me tornei uma pessoa muito mais FELIZ, LIVRE, e em Busca de ….UM SONHO…
    Abraços
    Lucas Nunes

    • Edynardo
      1 ano ago

      Cada um faz oque bem entender da vida,agora tudo tem um preço e Aviacao tem dessas ,ou você começa muito cedo (solteiro sem despesas)ou fica muito complicado!
      Comecei com 16 anos,solteiro sem compromisso , aos 21 já era PLA e graças a Deus nunca fiquei desempregado(caso raro entre meus colegas) voei Malote ,Remédio,Taxi aéreo, linha aérea VARIG ,GOL e por vontade própria estou na Executiva voando uma aeronave de cabine larga!
      Na minha própria família tem um caso inverso ao meu,apenas que o meu irmão começou com 28 anos casado e com filho,e após 3 anos desistiu!
      Se você tem condições de se manter por tempo indeterminado ,e paciência para aguardar o seu dia,faça porque é muito gratificante trabalhar no que se gosta!
      Boa Sorte.

  2. Foreflap
    1 ano ago

    Minha formação original é de contador, profissão que me proporcionou o financiamento desse sonho que é ser um piloto profissional. Sou formado, PC/MLTE/IFR/INVA…jet training e por ai vai. Em um momento quando me formei por volta de 2013 eu tinha na minha cabeça a convicção de juntar dinheiro pra me sustentar por mais um ano só na busca de empregos como piloto pelo Brasil. Hoje agradeço à minha esposa que na época era a chata que dizia que isso era muito arriscado.

    Me mantenho até hoje no meu emprego e tenho conseguido pagar as contas. Não está valendo nem manter as carteiras em dia, além de caro, não faz muito sentido. Continuo com esperança da recuperação para 2017, até lá, pé no chão. Conselho pra quem está estudando pra ser piloto: pense bem, tenha uma profissão de backup; ser SÓ piloto no Brasil não é uma boa ideia.

    É como um cara que é só pescador e depende de um rio que secou! Esse pescador não sabe fazer mais nada além de pescar! Ai meu amigo, tá feita a M*

  3. Sou engenheiro, fiz PP e PC Helicóptero e INVH, e sei que não vou ter trabalho na área. Conheço vários pilotos super qualificados, com mais de 1000 horas de voo, que não saem da instrução por falta de oportunidades melhores. Eu, então, nem vou perder tempo tentando. Não que eu não gostaria de trabalhar na aviação, mas a realidade é essa!

    Mas enfim, realizei um sonho pessoal, não me arrependo de ter gastado quase 100 mil nessa aventura. No começo de 2015 eu até apostei num “milagre”, uma recuperação, que hoje vejo que não veio e não virá. Vai restar fazer 1 ou 2 voos a cada 2 meses por hobby mesmo. Valeu pela conquista pessoal, tirei uma frustração da frente, agora é voltar a ser engenheiro porque as contas não param de chegar…

    Abraço a todos!

  4. vasconcelos
    1 ano ago

    Sou piloto profissional (2500 horas / curso superior em aviação civil / pós graduado em planejamento aeroportuário / INVA / Jet Training / vários grow school / Curso de todas as formas de aviação / CRM’s / segurança de voo ASV / etc, etc, ) estudei minha vida toda do jeito que minha mãe dizia “estude meu filho pra vc ser alguém na vida” , e agora estou vendendo churrasquinho e trabalhando de servente de pedreiro para sustentar minha família. (claro que todo trabalho é digno).
    Só não vou embora porque não tenho dinheiro pra levar minha família. O governo de bandidos, acaba com o povo, massacra tudo, se vende para outros países e por ai vai.
    Conselho para os novatos, não espere muito da aviação no Brasil, seja uma pessoa mais versátil, aprenda uma segunda profissão de alternativa.

  5. Zé Maria
    1 ano ago

    Raul, sério:
    (Chovendo no molhado. . .)
    Vai escrever bem assim “sei lá aonde!”
    Independentemente dos acertos ou não, e o foco não é esse, a leitura do que você escreve sempre é um exercício do saber, da competência, da capacidade.
    A todos nós, só resta esperar e torcer para que 2016 não seja tão amargo como estão prevendo, embora eu mesmo não acredite nessa possibilidade.
    Abraço.
    Zé Maria

  6. A.M.Filho
    1 ano ago

    Bem, achei um economista que consegue ver alguma luz no fim do túnel que não seja um trem vindo em sentido contrário.

    https://www.linkedin.com/pulse/vem-surpresa-boa-por-a%C3%AD-ricardo-amorim

    • Marco Véio
      1 ano ago

      Esse rapaz, acertou quando previu que não existiria estoura de bolha imobiliária aqui no BR pelo simples motivo que ela, já mais existiu. Vamos torcer que ele esteja certo nessa.

      Raul,

      Rachei o bico com o “Pai Raul”.

      Genial!

      • Julio Petruchio
        1 ano ago

        Esse Zé Ruela em 2009 também profetizou que a Bovespa chegaria aos 200.000 pontos em 5 anos.
        E também não aconteceu.
        Desculpe te desapontar, mas é mais um que só fala o que interessa a quem paga mais.
        Quanto à Bolha Imobiliária, ela não existiu, ela EXISTE e tem dois modos dela acabar: estourando ou desinflando, dependendo da conjuntura em qual país a mesma está instalada.
        No caso do Brasil, por enquanto ela está lentamente desinflando, algo que poderá acelerar conforme o governo fizer cagada.

        • Marco Véio
          1 ano ago

          Realmente difícil acertas todas!

          Agora no final do dia, me assustei com o tamanho das manifestações pro Dilma.

          Estamos perdidos com esse povinho que se contenta com o pão com mortadela.

          Apocalíptico!

          • Julio Peteuchio
            1 ano ago

            Pão com “mortaNdela” pago com dinheiro dos impostos pagos pelo contribuinte, diga-se de passagem.

  7. Xxxxx
    1 ano ago

    Demissões em Massa irão acontecer em Breve(uma das 3 grandes)

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