“Fazendo as pazes com a carreira” – Enderson Rafael

By: Author Raul MarinhoPosted on
493Views24

Segue abaixo mais um excelente artigo do Enderson Rafael – amigo, escritor e, nas horas vagas, piloto de Boeing-737 –, com sua visão sobre a rotina na linha aérea. Um bom contraponto ao texto sobre o “simulador caseiro de comandante” referido neste post!

Fazendo as pazes com a carreira

Já foi dito por muitos, e por mim mesmo, que uma das coisas que mais decepciona quem voa na linha aérea é o quão pouco se voa manualmente o avião, e o quão engessada a operação diária é. Dificilmente você vai passar por toda a formação básica e centenas de horas de voo que precedem um emprego sob o RBAC-121 (linha aérea) sem antever isso, mas obviamente que só vai sentir na pele essa realidade quando a estiver vivendo.

Não escondo de ninguém o quanto sinto falta de voar um Cessna sob regras visuais, e se essa chance tivesse, o faria amiúde certamente. Infelizmente, no Brasil não há a facilidade – seja burocrática, seja financeira – de se alugar um monomotor como há nos Estados Unidos, por exemplo. Lá você nem precisa ter um avião para satisfazer sua vontade, qualquer escola ou FBO aluga sem muita demora uma aeronave para você levar a família e os amigos para almoçar no estado ao lado, ou até passar alguns dias fazendo um tour por um arquipélago estrangeiro próximo. Isso tudo a um custo que qualquer piloto de linha aérea consegue pagar. E mesmo quem quer ter um avião consegue, ao custo aproximado de um bom carro aqui no Brasil. É só uma questão de prioridades. Desnecessário dizer o quanto isso contribui para manter-se proficiente no voo manual, visual e para a própria felicidade do sujeito.

Mas aqui no Brasil… É complicado, bem complicado. Com os salários caindo a olhos vistos nas últimas décadas, e com os custos de tudo subindo descaradamente, pagar as contas da casa – ou das casas, para quem mora fora da base contratual – já exige certo malabarismo. Neste cenário, salvo raríssimas exceções, ter um avião – sim, porque alugar é quase impossível – é impraticável ao piloto de linha aérea comum. Quando muito, juntar um dinheiro e nas férias, fazê-lo nos EUA para quem tem licença FAA. E mesmo assim, com o dólar no FL4,00 até isso fica difícil.

Pois bem, dito isso, voltemos à vaca fria. Dentro da aviação, há muitas realidades possíveis. A linha aérea é só uma delas – e mesmo dentro dela há divisões. Mas você pode soltar paraquedistas, puxar faixa, voar para um fazendeiro, fazer levantamento topográfico, dar instrução, dentre diversas outras possibilidades que eu poderia ter citado. Todas estas – em especial a aviação agrícola que eu não citei – dependem muito mais do voo manual do que a linha aérea. Porém, todas elas – com exceção de certa forma também da agrícola – voam menos horas mensais que a linha aérea. Seja pelo contato mais próximo da realidade do cidadão médio, seja pela beleza dos jatos comerciais, seja pelos níveis altíssimos de segurança e padronização, a linha aérea acaba sendo a menina dos olhos da maioria dos estudantes dos cursos de piloto. E ela não é tudo que parece, óbvio, mas tem muitas vantagens sobre outras aviações. A desvantagem maior, no entanto, tendem a ser menos tempo em casa e claro, menos voo manual e mais gerenciamento de sistemas.

Façamos justiça: gerenciar sistemas, programar o avião, tudo isso também tem seu charme. Não é de todo enfadonho, não mesmo. Entregar 200 pessoas, 2 mil milhas depois em segurança, no horário e com conforto é algo que exige um nível de padronização bastante exigente, e via de regra, vai ser flap 1 antes do initial approach fix, flap 5 antes do intermediate, e 3 milhas antes do externo, gear down, flap 15, landing checklist. Para a nossa alegria, ali pelos 600 pés fica a cereja do bolo: autothrottle disengage, autopilot disengage: “manual flight”. Mesmo o Boeing 737 é bastante automatizado, mas parece respeitar o piloto um pouco mais que a concorrência, e eu estaria mentindo se dissesse que não é uma delícia pousar uma aeronave dessas. Com tempo bom, é quase trivial.

Mas é com tempo ruim, tráfego intenso, intervenções do controle de tráfego aéreo, que os aviadores realmente despertam dentro dos dois sujeitos engravatados sentados à frente da máquina de 60 toneladas. “Mantenha 250 nós até EGDUT”, “25 nós da esquerda, 10 de proa”, “Você é o número 4 para pouso, reduza para mínima de aproximação”, “Inicie procedimento de aproximação perdida”. São coisas que nem os dedicados engenheiros da Boeing conseguem prever totalmente. E aí, cabe aos pilotos usarem todo seu conhecimento, experiência e julgamento para decidir o que e como fazer para atingir o objetivo. Neste momento, voar na linha aérea passa a ser tão divertido quanto voar no Cessninha, em especial se o colega do lado é um bom amigo e profissional. Os pilotos não temos medo da responsabilidade; na verdade até gostamos. Ao vigiar atentamente a altitude e velocidade, esquecemos das 200 pessoas lá atrás tal qual o cirurgião esquece do paciente deitado na mesa enquanto remenda uma artéria vital. Voamos números, parâmetros, IFR full. Mas mesmo isso tem sua graça. A hora de dar o speedbrake, usar o trem de pouso para dissipar energia de forma a trazer o avião para a estrita janela de segurança preconizada pela empresa. A decolagem, mesmo em saídas esteticamente belas como a ROMIB em Guarulhos ou a MADRID em Curitiba, não passam muito de um vídeo game, onde você mantém o quadradinho no centro da cruz magenta. É na hora do pouso que você volta ao seu ambiente: a pista lá fora, o vento, a pressão e a temperatura. Você sente a energia do avião, e isso mais do que a velocidade define o quanto de potência você aplica às manetes. No começo, todo mundo faz o flare alto. Com o tempo, você voa mais seguro na direção do asfalto, passa a sentir a hora de tirar motor e quebrar a razão ao invés de guiar-se apenas pelo sintético “fifty, forty, thirty, twenty, ten“. Você veste o avião, corrige seus próprios erros com mais rapidez. Entende melhor o que o computador está pensando. Se surpreende menos com a beleza da engenharia. Mesmo com todas as rígidas regras que devemos seguir – e que fazem todo o sentido, afinal o avião custa centenas de milhões de reais e não é seu – pilotá-lo em certos ambientes faz com que nos sintamos sim realizados. E no fim, parado no portão, enquanto os passageiros desembarcam, você levanta do assento onde estivera sentado quase ininterruptamente pelas últimas dez horas e entrega os papéis da navegação para que o chefe de cabine os jogue fora. Os passageiros o veem e agradecem pelo voo. Você não responde “de nada”, mas sim “obrigado” também. Afinal, sem eles, você também não estaria ali, sendo pago para fazer o que gosta. Um emprego que pode não ser perfeito, mas que você não trocaria por quase nenhum outro.

24 comments

  1. Breno Gomes
    1 ano ago

    Caro Enderson, confesso que quase me desceu uma lágrima pelo rosto! Haha.
    Excelente texto.

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Quase! hehe

  2. patrick eyng
    1 ano ago

    baita texto. A aviação é bela desde as primeiras aulas teóricas do pp, onde o sonho começa a virar realidade, todas as fazes da carreira do aviador tem uma beleza e emoção diferenciada. Espero um dia poder sentir essa emoção na linha. Bons voos comando!

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Esse é o espírito, mta gente não aproveita de tanta ansiedade.

  3. Marco Véio
    1 ano ago

    É sempre bom ler relatos assim. Mas cada vez mais raros.
    Hoje lendo o estadão, li dois relatos de PCs que largaram de mão a aviação aqui, e foram lavar pratos nos EUA. É o mais trágico para a nossa realidade daqui – ganham o dobro fazendo isso.

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Ah os EUA… a maior aviação do planeta me mata de saudades.

  4. Excelente!

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Obrigado!

  5. Drausio
    1 ano ago

    O capitão dono do excelente canal Mentour Pilot no YouTube andou falando sobre o assunto nestes vídeos:

    Especial atenção aos 4:37.
    https://www.youtube.com/watch?v=z13oS1Rc8l4

    https://www.youtube.com/watch?v=9GjFOzLutGI

    Acho que vale a pena explorar os outros muitos vídeos deste canal.

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Muito boa sugestão! Quem fala disso, muito melhor que eu, é o Les Abend na Flying. Tenho desligado mais o piloto automático graças a ele.

  6. Andre Pavin
    1 ano ago

    Show meu camarada. Realmente as emocoes de se voar na linha sao diferentes dos tempos da geral, nem piores nem melhores, cada uma com sua beleza.

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Exato, grande Pavin! Um dia quem sabe conseguimos juntar as duas!

  7. A.M.Filho
    1 ano ago

    Meus parabéns ao Enderson Rafael pelas belas palavras, garanto que fará mais gente ter vontade de voar na linha aérea, pena que nos últimos tempos de Brasil, está tão difícil conseguir uma vaga.

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Pois é! A economia precisa ajudar. Potencial não falta.

  8. Zé Maria
    1 ano ago

    Acompanho o Enderson apenas por aqui, sabia que estava na batalha por um lugar ao sol, fiquei muito feliz por saber que isso ele já conseguiu!
    Falar do texto, desnecessário, até porque outros colegas merecidamente já o elogiaram.
    Bons vôos!
    Zé Maria

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Lembro dos seus comentários nos últimos artigos meus por aqui! Obrigado pela torcida, deu certo!

  9. Thiago Vizeu
    1 ano ago

    Enderson, You’re the best!

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Vizeu sumido! Vivo pousando em JPA, pena que sempre bate-volta…

  10. Marcel Peruch
    1 ano ago

    Belo texto do Enderson! Obrigado…

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Eu que agradeço!

  11. Anderson
    1 ano ago

    Lindo texto!

    • Enderson Rafael
      1 ano ago

      Muito obrigado!

      • Weyne
        1 ano ago

        Bom Enderson ,qual foi a tua turma na Gol?

Deixe uma resposta