CENIPA informa redução de 16% nos acidentes aeronáuticos do Brasil – Pode ser uma boa notícia (mas não necessariamente é).

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O CENIPA publicou uma nota em seu portal na última sexta-feira (08/01) informando que o número de acidentes aeronáuticos decresce há 4 anos. Pode ser uma boa notícia para a aviação brasileira? Sim, claro! Mas… Será que ela é, de fato, tão auspiciosa como parece? Infelizmente não dá para saber, por dois motivos:

  1. O CENIPA não informa qual foi o decréscimo das operações aeronáuticas ocorridas em 2015. Sabemos que o país encolheu sua economia em mais de 3,5%, e que a aviação (em especial a aviação geral) sofreu muito mais do que isso, principalmente devido ao impacto do câmbio (o Real se desvalorizou cerca de 50% ante o Dólar). Quantas horas de voo foram voadas a menor em 2015? Quanto de combustível se consumiu a menos no ano passado? Sem esse tipo de parâmetro, a citada redução no número de acidentes – de 16% sobre 2014 – não significa muita coisa.
  2. Na aviação geral de pequeno porte (monomotores a pistão), sabe-se que há uma forte migração de aeronaves certificadas para as chamadas “experimentais”, só que o CENIPA não investiga os acidentes desta última e nem contabiliza essas ocorrências nos seus relatórios. Então, este é mais um fator que distorce os números e contribui para não se saber, realmente, se a segurança da aviação brasileira melhorou ou piorou em 2015.

Além disso, a nota constrói uma relação de causa e efeito não comprovada. Se a “queda no número de acidentes tem sido percebida desde 2012, com diminuição de 31% no número de acidentes, e é fruto da missão de promover a prevenção de acidentes aeronáuticos, visando ao progresso da aviação brasileira”, seria interessante mostrar como se deu a evolução das “ações de prevenção realizadas continuamente pelo CENIPA com a participação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), indústria aeroespacial, entidades do Comitê Nacional de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CNPAA), empresas e operadores aeronáuticos”. O que se fez de diferente neste período que justifique tal redução? Quantos recursos adicionais foram investidos? Quantas pessoas a mais foram treinadas ano a ano? Em que cursos? Que novos programas foram implementados? Enfim, o que exatamente foi feito para obter tal redução?

Não se trata de má vontade com o CENIPA. Pode ser que tenha ocorrido, sim, uma redução efetiva (levando-se em conta a atividade operacional) nos acidentes aeronáuticos, e pode ser que isso tenha acontecido por causa de melhorias na gestão de quem atua na segurança aeronáutica, inclusive do próprio CENIPA. Pode ser, inclusive, que o progresso em 2015 tenha sido superior aos 16% citados na nota! O problema é que, do jeito que as informações foram divulgadas, não se pode concluir nada com absoluta certeza.

8 comments

  1. Alexandre
    1 ano ago

    Vejo aviões que voavam toda semana no passado e hoje passam semanas dentro do hangar. É fato que esta estatística é mentirosa como tudo nesse país.

  2. Fred Mesquita
    1 ano ago

    Acho que o CENIPA é um dos poucos que se beneficia com. a grave crise pelo qual passamos. É notório que esses números são reais, mas são baseados na drástica redução dos números de voos de hoje em dia. “Eles” comemoram, mas bem sabemos que o passo dado pelo CENIPA em nada houve mudanças nas políticas de segurança de voo que achamos estarem sendo aplicadas no Brasil. É o mesmo que alhos nos bugalhos… e assim os indicadores firam fantasia para gringo ver…

    • Joao Melo
      1 ano ago

      Verdade!!! Falou tudo! Abraço

  3. Mitchel Matias
    1 ano ago

    Dada a imprecisão dos dados, é improvável que tenha ocorrida uma redução efetiva e, se ocorreu, duvido que tenha a ver com a atuação do CENIPA. Afinal, o que não se mede, não se gerencia.

  4. Augusto Fonseca da Costa
    1 ano ago

    De fato, a principal distorção das estatísticas do CENIPA se deve a não serem investigadas, e nem sequer registradas, as centenas de acidentes anuais em grande parte fatais, com aeronaves falsamente ditas “experimentais”, “de fabricação amadora” (mas são fabricadas em indústrias), “esportivas” etc..
    Essas aeronaves “precarimentais” (PET) vêm superando no RAB os registros de aeronaves privadas (TPP) e de táxis aéreos (TPX) SOMADOS !!!
    O Cel. Fernando Silva Alves de Camargo, do CENIPA, membro do CERCBA – Comissão de Especialistas da Reforma do Código Brasileiro de Aeronáutica, explica que não são investigados esses acidentes porque como não há uma Certificação pela ANAC, o CENIPA não tem dados técnicos para investigação e teria que praticamente “certificar” cada aeronave para depois investigar.
    E não há certificação para “permitir o fluxo de caixa dos fabricantes” segundo diz a própria ANAC no RBHA 21.191 1.5.4. e no iBR 2020 1.6.1..
    Ou seja, por essa suspeita omissão criminosa da ANAC, nem o CENIPA consegue investigar. Mas poderia ao menos registrar esses acidentes para efeitos estatísticos.
    No Brasil as perícias e inquéritos em acidentes com essas aeronaves são sumariamente relegados à Polícia Civil, que admite nada entender de aviação e nem ao menos retroalimenta os bancos de dados do CENIPA, mesmo com suas conclusões não especializadas.
    Com efeito, nas estatísticas publicadas pelo CENIPA não aparecem esses acidentes, o que mantém essa aviação às escuras, sonegando ao público consumidor e aos cidadãos em geral o conhecimento acerca de seus muitas vezes elevadíssimos riscos.
    É como se não fossem aeronaves os “objetos voadores” dessa enorme aviação.
    Mas são, segundo o Código Brasileiro de Aeronáutica:
    “Art. 106. Considera-se aeronave todo aparelho manobrável em vôo, que possa sustentar-se e circular no espaço aéreo, mediante reações aerodinâmicas, apto a transportar pessoas ou coisas….”
    Há fabricantes sérios sem dúvida, mas muitos divulgam propaganda enganosa abertamente, por exemplo anunciando ultraleves como Aeronave Leve Esportiva – LSA, e até se dando ao luxo de economizar tostões descumprindo boletins mandatórios e depois mentindo que cumpriram. Esse último com resultado fatal em nossa própria casa, vitimando nosso filho de 19 anos.
    Vai continuar assim?
    Não. No que depender de nossa luta, não.
    Aguardem.

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