ANAC anuncia um 2015 positivo – Mas se observarmos os indicadores da ANP, a figura é outra.

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A ANAC publicou uma nota hoje em seu portal anunciando que o transporte aéreo fecha 2015 com índices positivos. Todos os indicadores de oferta, demanda, RPKs, ASKs e XYZs considerados, parece que 2015 não foi tão ruim como se alardeia. Hmmm… Por que será, então, que a percepção de quem trabalha na aviação é outra? Pessimismo infundado?

Sem ofensas às estatísticas da ANAC, vejamos o que revelam os números de uma outra agência, não ligada diretamente à aviação, a ANP-Agência Nacional do Petróleo, que divulga estatísticas sobre o consumo de combustíveis, inclusive QAV e AVGAS. O querosene de aviação/QAV é utilizado tanto na linha aérea, quanto pela aviação geral de asa fixa e rotativa (jatos e turboélices/turboeixos, especialmente – aeronaves mais sofisticadas), enquanto que a gasolina de aviação/AVGAS é utilizada somente pelas aeronaves com motores a pistão, menores e mais simples: aviões monomotores como o Cessna-172 ou bimotores como o Baron, e helicópteros como o Robinson-44, por exemplo. Há, ainda, uma parcela da aviação agrícola que utiliza etanol nas suas aeronaves, mas tudo bem, essa parcela do consumo de combustíveis aeronáuticos não fará tanta diferença numa análise global de desempenho da aviação. Para evitar possíveis distorções, vou utilizar somente os números de jan-nov de cada ano, que são os atualmente disponíveis no site da ANP.

Consumo de QAV

Em 2014, o consumo total de querosene pelas aeronaves foi de 6.814.382m³, caindo para 6.735.385m³ em 2015 – uma redução de 1,2%, portanto*. Mas o mais preocupante é como esta redução se deu ao longo do ano, veja a sequência abaixo, representada graficamente:

*Obs.: Se utilizássemos os dados jan-dez extrapolando o consumo de dez/15 pela média do ano, a queda seria ainda maior, 1,6%.

QAV2015Perceberam o drama? O complicado não foi a redução do consumo anual, mas sim a tendência dessa diminuição, que começou a “descer a rampa” em março, entrou no negativo em agosto, e a cada mês que passa tem uma “razão de descida” mais pronunciada, sem nenhum sinal de “flare”. Ou seja: no segmento da aviação que usa QAV, o sinal é de CFIT (voo controlado contra o terreno) iminente…

Vejamos, agora, o que aconteceu na aviação que usa gasolina de aviação:

Consumo de AVGAS

O consumo de combustível das aeronaves a pistão já começaram o ano de 2015 em acentuado declive (-9,36%) e terminaram o ano com uma redução equivalente à média anual: -17%. Vejam a seguir como isso se deu graficamente:

AVGAS2015Neste caso, o que já era muito ruim foi piorando, piorando, até o ponto em que nem tem como piorar muito mais…

Conclusão

Novamente dizendo: não quero desmerecer as estatísticas e conclusões dos estudos da ANAC com este post. Mas, observando os dados sobre o consumo de QAV e AVGAS ao longo do ano passado, fica complicado admitir que o “transporte aéreo fecha 2015 com índices positivos” mesmo, né? Ou é “pessimismo infundado”?

 

 

 

13 comments

  1. Laura
    2 anos ago

    Prezado Raul,
    parabéns pelo conteúdo do seu site. Estou fazer uma pesquisa de consumo de combustíveis da aviação e gostaria de saber qual a referência você utilizou para o dado de consumo de QAV. Obrigada.

    • Raul Marinho
      2 anos ago

      ANP. O link está no post.

  2. Ronaldo
    2 anos ago

    Uma parte (pequena se comparada com a queda total) da redução no consumo de gasolina de aviação é explicada pela sazonalidade. Os anos de eleição geral (2002, 2006, 2010 e 2014), nos meses de setembro, e em alguns casos agosto, têm aumento de consumo em relação ao ano anterior. E esse consumo nunca se repete no ano seguinte, quando não há mais eleição.

    Mas é mesmo uma parte pequena. De 2010 pra 2011, essa sazonalidade representou uma queda de 10% em um dos meses do ano, o q contribuiria com cerca de 1% de queda no total anual.

  3. Matheus
    2 anos ago

    Oi, Raul. É um pouco desanimador ver que a aviação civil passa por um momento de recessão. Tenho 19 anos e sempre fui fascinado por aviação; não sei, contudo, se devo investir nesse ramo – afinal, paixão por profissão nenhuma põe comida na mesa. Atualmente sou funcionário público e estou esperando ser chamado para um segundo concurso, em breve, se Deus quiser. Com uma remuneração melhor desse segundo concurso, estive pensando em investir nos meus estudos na aviação, mas com o cenário atual isso soa arriscado. Será que valeria a pena investir na carreira na aviação civil ou deveria tentar outros ramos – como prestar outros concursos ou tentar ramo na aeronáutica (EEAr, por exemplo)? Acredito que nenhuma recessão dura tanto tempo assim, de modo que, digamos, se em três anos essa situação se inverter, ainda estarei jovem para tentar carreira na aviação.

    Obrigado!

    • Raul Marinho
      2 anos ago

      Se vc está pensando na carreira como investimento, então escolha outra área.

      • Matheus
        2 anos ago

        Toda carreira é um investimento, afinal ninguém trabalha para não receber. Em uma carreira se investe tempo, esforço, dinheiro para, no futuro, se colher satisfação e retorno financeiro.

        • Raul Marinho
          2 anos ago

          Ok, esta é uma maneira possível de analisar seu projeto de carreira, não está errado. O que estou tentando te explicar é que, se vc for por esta linha, vai concluir que não deve tentar uma carreira na aviação.

          • Matheus
            2 anos ago

            Entendo. Obrigado.

  4. Julio Petruchio
    2 anos ago

    Não dá para confiar em nada que venha do gobierno e dos órgãos de imprensa nesse país, muito menos num órgão público reconhecidamente “manco” utilizado como presente de casamento aos aliados.
    Se quiser pesquisar mais, é só procurar saber sobre estatísticas de pouso e decolagens nos aeroportos nos últimos anos.

  5. A.M.Filho
    2 anos ago

    Interessante o cruzamento da notícia divulgada pela ANAC com os dados fornecidos pela ANP. Se olharmos com atenção aos dados de ASK e RPK, veremos que a ANAC afirma que os números foram ruins em Dezembro de 2015 e que nos meses anteriores já havia iniciado uma série negativa, o que muito provavelmente, mostra o início da tendência mais aprofundada da crise e que continua pelo ano de 2016. É claro que a ANAC preferiu dar mais atenção ao acumulado do ano que apresenta alguma melhoria em relação a 2014. É importante lembrar que até o fim do primeiro semestre do ano passado as empresas ainda adotavam um discurso de que a crise, talvez, não seria tão forte. Ao mesmo tempo, ocorria a forte desvalorização cambial o que forçou as companhias a adotarem uma postura mais conservadora no segundo semestre. Empresas como a TAM, iniciaram uma redução de oferta ainda no ano passado.
    O que me causa espanto é ver a ANAC fazendo toda essa análise sobre a linha aérea sem falar nos demais setores da aviação como a executiva ou as escolas de aviação.
    Os dados do consumo de AVGAS, do ano passado, mostram que a aviação pequena foi destroçada. É um retrato do que se pode constatar na prática em qualquer aeroporto da aviação geral. Boa parte das aeronaves estão no chão, voando muito pouco e com anúncios de venda. Empresários donos de aviões a pistão, em linhas gerais, não possuem o mesmo “poder” que um empresário que possui um jato o que o torna mais suscetível a crise. A coisa aperta, o avião para.
    Pelo que escuto de colegas, as escolas de aviação também estão em um ritmo bem mais lento o que contribui para este baixo consumo de Avgas.
    É uma pena mas tudo isso é fruto de escolhas erradas nas urnas!!

  6. Dan White
    2 anos ago

    Impressionante como as aeronaves estão cada dia mais econômicas! :P

    O ano realmente não foi muito bom para as empresas aéreas (também)…
    A demanda de passageiros diminuiu como um todo.

    Contudo, como qualquer empresa de qualquer outro ramo, para sobreviver são necessários ajustes para se manter o equilíbrio entre Demanda (RPK) e Oferta (ASK).

    Ou seja, reduz a quantidade de voos (que resulta num menor consumo de combustível) para manter a relação RPK/ASK positiva.
    Os indicadores da ANP demonstram redução da oferta de voos, mas não tem relação direta com os índices (RPK/ASK) apontados pela ANAC.
    Índices positivos (RPK/ASK) não necessariamente representam lucro.
    Pode-se ter índices favoráveis mesmo com uma empresa indo em direção à falência. Que é a realidade de várias empresas hoje.
    Após a redução de oferta, um próximo (inevitável) passo seria downsizing. Como a Sete Linhas Aéreas foi “obrigada” a fazer.

    O pessimismo não é infundado, o mercado está realmente triste, mas “uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa”.

    • Julio Petruchio
      2 anos ago

      É que o pessoal tem operado muito no Lean Of Peak… #SQN!

  7. Leitor
    2 anos ago

    Normal… ainda mais se tratando do Brasil.
    Só tenho uma dúvida!?
    Existe nesse país alguma instituição pública que seja digna de confiança?
    Os números não mentem e com certeza não teremos contestação por parte da Anac.

    ” If you can´t describe the numbers, it´s just an opinion”

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