Um acidente primo-irmão do que ocorreu com o Roger Agnelli não foi investigado em 2013 porque não ofereceria subsídios à prevenção de acidentes. Será que não mesmo?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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No dia 29 de maio de 2013, uma aeronave Comp Air 8 – um avião do mesmo fabricante do Comp Air 9 acidentado no sábado (19/03/16), só que anfíbio, e um pouco menor e menos potente – sofreu um acidente em Sorocaba logo após a decolagem, caindo sobre uma residência e vitimando seus dois ocupantes (também não houve vítimas em solo, por sorte). No portal G1, as notícias sobre o acidente publicadas no dia em que ele ocorreu diziam que “segundo a assessoria de imprensa da Força Aérea Brasileira (FAB), o avião envolvido no acidente era uma aeronave experimental. Ainda de acordo com a FAB, aviões deste tipo não precisam passar por investigação após acidentes, mas o órgão não descarta a possibilidade”.

Ok. Dias depois, em 06/06, o jornal Cruzeiro do Sul já informava que as autoridades da FAB em segurança da aviação descartavam, sim, a investigação – vide texto abaixo (grifos meus):

(…) Caberá à Polícia Técnico-Científica do Estado apontar de que forma o avião caiu e como foi a evolução do acidente, já que a Aeronáutica não averiguará. Apesar do Sistema do Comando da Aeronáutica prever na norma NSCA 3-13 que acidentes que resultem em mortes sejam investigados pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), esse órgão subordinado à Aeronáutica alegou que neste caso deixa de fazer a investigação porque a aeronave era experimental, ou seja, tratava-se um avião não homologado. A explicação do Cenipa foi que sua investigação tem o exclusivo objetivo de traçar recomendações preventivas em relação à segurança de vôo. Descartou a possibilidade de investigar o acidente em Sorocaba porque em aviões experimentais não há parâmetros para estabelecer procedimentos a partir de acidentes com aviões sem homologação.

Ou seja: em outras palavras, o CENIPA afirmou que investigar o acidente com o Comp Air 8 não levaria a nada em termos de prevenção, já que não se poderia aplicar os respectivos ensinamentos em outras aeronaves semelhantes, como… O Comp Air 9 que se acidentou três anos depois, também logo após a decolagem, atingindo uma residência nas imediações da pista. Será que não mesmo?

Os argumentos do NSCA 3-13 para não investigar acidentes com a aviação experimental se baseiam em: 1)Que as aeronaves experimentais são únicas (e, portanto, os fatores contribuintes de um acidente não se aplicariam a outros casos); e 2)Que o voo é “por conta e risco do operador” (item 6.9.2). Quanto ao primeiro argumento, vemos nesse exemplo dos dois acidentes acima que, talvez, não seja bem assim – a confirmar. Já quanto ao segundo, fica a pergunta: onde os moradores das casas atingidas assinaram concordando com o “voo por conta e risco”?

Acho que passou da hora de o CENIPA rever a redação do NSCA 3-13, e tratar a aviação “experimental” como ela merece. As vidas perdidas em acidentes com aeronaves “experimentais” valem tanto quanto as vidas perdidas com aeronaves certificadas, e as pessoas em solo também estão expostas ao risco de ambas. Boa parte das aeronaves contabilizadas como “experimentais” tem exemplares semelhantes voando, e é claro que as investigações desses acidentes levarão, sim, a melhorias na segurança da aviação brasileira – tanto para os envolvidos neste segmento da aviação, quanto para os usuários da aviação certificada e, especialmente, as pessoas em solo.

15 comments

  1. MARC
    2 anos ago

    Raul,
    E presenciei o acidente do Com Air C8 naquele dia, eu era o número 2 para decolagem.
    A questão aqui de ser ou não ser investigado acidentes em aeronaves experimentais, também da deploravel situação que os orgãos militares se encontram atualmente, trata-se de efetivo.

    Como todos nós sabemos, o governo tem diminuido investimentos na aeronautica ao longo de 3 décadas, os atuais sistemas tem cada dia mais se deteriorado, já passou da hora de investimentos pesados na aeronautica, se hj o CENIPA que investiga acidentes de aeronaves homologadas demora mais de 1 ano para entregar o relatório final, portanto fora do prazo regulamentar, imagina se for ter que investigar aeronaves experimentais também, ai pará de fez o CENIPA.

    Antes de vermos esta questão, temos que ver como está o sistema, falta dinheiro, falta efetivo, falta tecnologia, falta tudo !!!! Os caras são uns herois, fazem o que pode com o pouco que têm !

  2. Paulo Noto
    2 anos ago

    Uma pergunta: Caso uma aeronave, em situação pre homologação, se acidente, não existirá investigação ? Ué se ainda não se tornou homologada, experimental será, ou estou errado ? Muitas e muitas aeronave e, principalmente vidas, foram perdidas em situações como está ! Um absurdo a não investigação qualquer que seja o acidente ou incidente, tudo deverá contribuir para uma aviação mais segura sempre!

    • Chumbrega
      2 anos ago

      Excelente ponto.
      O CENIPA, há muito, vem deixando a desejar. SEMPRE escolhendo o caminho mais fácil, de usar artifícios legais para não investigar. E se o KC-390, em seu vôo inaugural (ou seja, ainda não certificado) caísse no centro de SJC. Não ia investigar também? Mais um órgão de reconhecida competência indo pro saco seja lá pelo motivo que for…

  3. Pinçando apenas 2 itens do caput da postagem:
    1)Que as aeronaves experimentais são únicas (e, portanto, os fatores contribuintes de um acidente não se aplicariam a outros casos): ÚNICAS? Há modelos com centenas de unidades produzidas e voando pelos céus do Brasil
    2)Que o voo é “por conta e risco do operador” (item 6.9.2). Essa frase é ilegal porque contraria os direitos à vida previstos na Constituição tanto para ocupantes quanto pessoas no solo e no Código de Defesa do Consumidor.
    Está na hora dessas ilegalidades acobertadas pela ANAC virem ao conhecimento público.
    Talvez essa tragédia possa trazer alguma luz e poupar outras vidas.

    • Dan White
      2 anos ago

      FAB X CENIPA X Constituição X CDC X ANAC
      Escolha um…

  4. Beto Arcaro
    2 anos ago

    Quantos “defeitos” foram descobertos em Aeronaves Certificadas, à partir de investigações sérias de acidentes ?
    Se investigassem, já seria uma mão na roda!
    Quantos Pilotos/Operadores/montadores de Aviões Experimentais gostariam disso?
    Não sei….
    Aquela plaquinha, do “voo por conta e risco” afirma uma grande mentira.
    Nos dias de hoje, nada mais é “por conta e risco”, principalmente o que pode trazer prejuízo material e humano.
    Alguém tem que se responsabilizar !
    Os dados de investigação do CENIPA são utilizados para esse fim.
    Se o CENIPA, nem ninguém, investiga…
    Não sou contra a Aviação Experimental, acho que ela tem que existir, de forma saudável e responsável.

    • Dan White
      2 anos ago

      Beto, vá além do significado explícito da “plaquinha”…
      Como disse, “alguém tem que se responsabilizar”. CLARO.
      Esse “por conta e risco” exime o fabricante, o “montador de kit”, o “mecânico”, e por aí vai…

      Ninguém foge da esfera civil/criminal!
      A não ser que por algum motivo qualquer alguém o indique para ministro.
      Mas isso eu nunca acontecer… ops

  5. Alexandre
    2 anos ago

    Raul essa sua colocação foi perfeita.
    Já quanto ao segundo, fica a pergunta: onde os moradores das casas atingidas assinaram concordando com o “voo por conta e risco”?

  6. Paulo Travaglini
    2 anos ago

    Eu penso que essa autorização de uso de aviões “experimentais” deveria ser extinta. Em seu lugar deveria ser criada uma certificação rápida, baseada na análise do projeto, na verificação da qualidade da montagem e em voos de teste monitorados. Esse processo poderia ser barateado usando o conceito de colaboração em rede, e deveria contar com a contribuição de aposentados da carreira militar (pilotos) e de órgãos públicos (inspetores). Já que vão receber aposentadoria com recursos públicos pelo resto da vida, deveriam colaborar nas cerificações.

    • Dan White
      2 anos ago

      Certificação + análise de projeto + verificação de qualidade + voos de teste + órgão público = HOMOLOGAÇÃO.
      Tudo o que se “evita” na aviação experimental.
      É uma aviação mais barata por natureza e não deveria ser utilizada para transportar mais que 4 ocupantes!

      • Alexandre
        2 anos ago

        Eu acho que não deveria levar mais que 2, quando aquela galera trepava em cima de um telhado com um FOX V2 não dava nada pq a porra tinha uma VMO 60 milhas agora nego voa umas paradas que tem hélice passo variável, Garmin 900, homologado IFR (esse pra mim é o maior absurdo) mas voam com a mesma cabeça e a mesma manutenção daquela galera do V2.

    • Cesar
      2 anos ago

      Ô Paulo Travaglini, não acredito que você quer acabar com a aposentadoria dos pilotos militares que estão aposentados… brincadeira tem hora rapaz…

  7. Henrique Uchoa
    2 anos ago

    Bom dia. As aeronaves consideradas “experimentais” deveriam ter um limite de horas de vôo para assim ainda serem consideradas. Não vejo como considerar por exemplo os RV-10, Petrel, e etc. como experimentais, mesmo já terem sido vendidos dezenas de exemplares e possuírem mais de 1000 h de vôo. O conceito de “experimental” era usado para aeronaves de construção amadora, modelos únicos, o que foge da realidade das aeronaves fabricadas em série e recebem ainda assim a denominação de “experimental”. Isso tem que ser revisto.

  8. Jose Luis Pinheiro
    2 anos ago

    Raul,

    Parabéns por esse pequeno detalhe que você colocou :

    “Já quanto ao segundo, fica a pergunta: onde os moradores das casas atingidas assinaram concordando com o “voo por conta e risco”?”

    Ninguém lembra de quem levou uma aeronave na cabeça.

    Ótima semana.

  9. Beto Arcaro
    2 anos ago

    Sem dúvida, a investigação por parte do CENIPA melhoraria em muito, a segurança de voo nessa modalidade de Aviação.
    Acredito que até algumas “filosofias”, com relação à experimental seriam mudadas, mesmo que “por conta e risco”.
    Quanto ao Comp….
    Aviões problemáticos, com relação a estrutura, aos motores (pelo menos nos mais antigos) sistemas de controle de voo….isso no projeto do Fabricante do Kit.
    Os aviões montados no Brasil, eu sei que tiveram algumas modificações, mas como todo experimental, não sei se realmente foram “pra melhor”.

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