Ontem aconteceu mais um acidente com avião “experimental” – que não será investigado. Está na hora de mudar isso, e exigir das autoridades isonomia de tratamento!

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Três dias depois do acidente com o PR-ZRA, aconteceu mais um acidente com uma aeronave “experimental” (vide reportagem do Estado de Minas), um RV-7A (avião fabricado a partir de um kit da Vans Aircraft). No vídeo a seguir, vejam os destroços para que se tenha uma ideia mais realista da ocorrência:

A diferença é que, desta vez, não morreu ninguém, a única vítima (não fatal) foi o próprio piloto-proprietário/operador, o ‘crash site’ era um matagal longe de São Paulo e, principalmente, não havia nenhum sobrenome famoso envolvido. Resultado: na melhor hipótese, esta ocorrência vai para as estatísticas do CENIPA, mas a investigação do acidente mesmo não deverá ocorrer – afinal, a NSCA 3-13 não a obriga, já que “o voo é por conta e risco do operador e do piloto” e “eventuais ensinamentos acerca dos fatores contribuintes de acidentes com aeronaves ‘experimentais’ não deverão resultar em prevenção de futuros acidentes”.

Só que, pelos relatórios do próprio CENIPA (e com todos os seus problemas de subnotificação), este acidente de ontem foi o 15° ocorrido desde 2009 com uma aeronave “experimental” montada a partir de um kit Vans. Será que não valeria a pena investigar um acidente com uma aeronave da linha RV/Vans para verificar se não há algo que poderia ser feito para evitar que o 16°, 17°, 18° acidente ocorra? A propósito, a planilha do RAB da ANAC possui 833 aeronaves dos diversos modelos RV/Vans matriculadas no Brasil (115 só do RV-7/7A).

Eu sei que o CENIPA tem graves dificuldades para conseguir efetuar seu trabalho atualmente obrigatório, de investigação de acidentes com aeronaves certificadas. Reconheço que aumentar ainda mais o escopo de atuação do órgão com os atuais recursos materiais e humanos de que ele dispõe seria administrativamente inviável. Mas nada disso justifica a omissão, e “alguma coisa” precisa ser feita, nem que essa “coisa” seja agregar mão-de-obra de investigação de fora do CENIPA para executar este trabalho – e essa mão-de-obra existe! A única dificuldade seria como financiar essa atividade investigativa, mas há como resolver isso também.

Os proprietários-operadores da aviação “experimental” pagam praticamente as mesmas tarifas que os seus congêneres da aviação certificada – sendo que estes últimos têm seus acidentes investigados “gratuitamente” por militares da FAB e os primeiros não. Ora, então não faria sentido exigir isonomia de tratamento e obrigar as autoridades a determinar que “alguém” realize a investigação das aeronaves não-certificadas? O dinheiro já está lá no FNAC: recursos que o governo queria usar para a aviação regional. Ora, se faz sentido usar esse dinheiro para propósitos econômicos, o que dizer de aplicações para a segurança? A propósito, quanto custaria ter investigado os 41 acidentes com aeronaves “experimentais” que o CENIPA disse que ocorreram no ano passado (lembrando que 2015 foi recorde em acidentes desta natureza)?

Acho que não dá mais para deixar a aviação “experimental” no limbo da prevenção de acidentes no Brasil. Se a comunidade dos construtores e usuários deste segmento aeronáutico quiser que a aviação não-certificada continue existindo, a única alternativa é atacar a questão da prevenção dos respectivos acidentes. É isso ou a certificação.

5 comments

  1. Hugo Puntel
    1 ano ago

    Isso acontece porque aeronaves experimentais não tem suas pecas rastreáveis, o que torna a investigação inconclusiva e deficiente, o que não serviria para a prevenção de outros acidentes.

    • Raul Marinho
      1 ano ago

      Aí que tá… O que está errado, em minha opinião, é justamente esta filosofia de investigação, centrada nos estudos de engenharia, digamos assim. Na realidade, poder-se-ia prevenir a maior parte dos acidentes somente pela identificação dos fatores humanos envolvidos na ocorrência e pela geração de dados estatísticos realistas e aproveitáveis.

  2. Marcos Véio d' Guerra
    2 anos ago

    Concordo em 101% com o titulo do post.

  3. Beto Arcaro
    2 anos ago

    Como eu já disse em outro post:
    Se a Experimental quiser sobreviver, terá que deixar de lado a cultura do jeitinho, do “mais barato”.
    Terá que ser mais profissional, terá que ser segura, enfim, terá que ser próspera.
    Eu não entendo, como os próprios pilotos/operadores de aeronaves experimentais são tão reticentes quanto à isso.
    Não generalizo!
    Existe muita gente que faz EXPERIMENTAL séria no Brasil.
    Ou que pelo menos tentam.
    Tanto as pessoas envolvidas, as associações, quanto a ANAC/DAC, “empurraram com a barriga” durante anos, uma situação absurda.
    A Criança cresceu sem Pai nem Mãe.

  4. Gustavo Carolino
    2 anos ago

    Minha visão sobre as aeronaves experimentais:

    A condição de “experimental” é importante no processo de fabricação, durante o desenvolvimento do profuto, e deveriam ser experimentais apenas enquanto vinculada exclusivamente à fabricante aeronáutico, quando não são ainda livremente oferecidas ao mercado consumidor.

    Pessoalmente, creio que deveriam ser comercializadas apenas aeronaves certificadas. Entretanto, essa aviação desportiva merece ser orientada por um processo de certificação que, embora possa ser simplificado, seja melhor elaborado.

    Não certificar aeronaves apenas favorece o enriquecimento das empresas de fabricação que, muitas vezes, nem ao menos buscam evoluir com um projeto de aeronavegabilidade continuada, abandonando-os quando algo começa a dar errado.

    Uma certificação de Aeronave Leve Esportiva, ou desportiva é essencial para mudarmos de nivel – para melhor – e evitar abrir espaço para possiveis precariedades nessa aviação.

    Acredito que todo o sistema pode ser melhorado.

    Quanto às investigações, acredito que manter compromisso com investigações OACI anexo 13, apenas é NÃO querer evoluir um sistema nacional de seguridade na aviação, se limitando a copiar e colar apenas o que vem de fora, não se dando trabalho para inovar aqui dentro.

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