A matéria do ‘Fantástico’ sobre a “aviação experimental”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O Fantástico da Rede Globo apresentou ontem (27/03/2016) uma matéria sobre “aviação experimental”, explorando o recente acidente com o PR-ZRA. É claro que, pelas próprias características do programa, não haveria como ser uma reportagem completa e conclusiva sobre o assunto, mas ele toca em alguns pontos importantes, especialmente o da assimetria de informações entre os diversos operadores de “aeronaves experimentais”.

A reportagem entrevista, por exemplo, o Cmte. Albrecht, ex-piloto de caça da FAB e piloto ultra-experiente de aeronaves leves, que opera uma “aeronave experimental”. É claro que, para um operador desses, há plenas condições de avaliação sobre os riscos envolvidos. Mas e quanto à namorada do filho do Sr. Roger Agnelli, será que ela tinha as mesmas condições de avaliar os riscos da operação do avião do futuro sogro? O que nos leva à imagem que, na minha opinião, é a mais importante da matéria:

contaerisco“Voo por conta e risco próprios”: é este o texto da plaqueta que a citada vítima do acidente deveria ter lido e concluído sobre sua conveniência ou não de tomar parte naquele fatídico voo. E também é o que o NSCA 3-13 usa como argumento para, em seu item 6.9.2, justificar a não obrigatoriedade de investigações por parte do CENIPA. Em outras palavras, o que diz o órgão responsável pela prevenção de acidentes no Brasil é: “se você assumiu o risco de entrar numa ‘aeronave experimental’, problema seu; se você sofrer um acidente, eu não quero nem investigar”.

Outro ponto importante levantado pela reportagem é quanto à característica de “construção amadora” das “aeronaves experimentais”. Eles entrevistam, inclusive, um fabricante/montador de “aviões experimentais”, e mostram sua linha de produção impecavelmente organizada, revelando um profissionalismo a toda prova. Que bom que é assim, não? (Não sei se estou sendo muito sutil na ironia…).

Ainda sobre a questão da “construção amadora”, a reportagem diz que, de acordo com a regulamentação norte-americana, é preciso arquivar fotos e vídeos que comprovam a “atuação amadora” do operador da aeronave. Ou seja: deve haver registros do Sr. Roger Agnelli de macacão e chave de fenda em punho, trabalhando na construção de sua aeronave. Será que o fabricante poderia enviar esses arquivos para os investigadores do acidente no Brasil?

Finalmente, quero voltar ao ponto citado aqui e que nem o Fantástico nem nenhum outro órgão de imprensa ainda falou: em 2013 ocorreu um acidente muito semelhante ao do PR-ZRA em Sorocaba, logo após a decolagem de um Comp8. O acidente não foi investigado pelo CENIPA (lógico: que ensinamentos ele poderia prover?), mas foi pela Polícia Civil local. Será que não há nenhuma informação importante na delegacia de Sorocaba que poderia ajudar a elucidar o acidente do Jardim São Bento?

 

11 comments

  1. Márcio
    7 meses ago

    O PR-ZRA e seu “irmão mais novo” foram construidos por uma equipe de engenheiros e tecnicos aposentados da Embraer, numa oficina homologada no interior de Sao Paulo. As aeronaves foram desenvolvidas, construidas e testadas pelo mesmo pessoal que construiu centenas de Minuanos, Senecas, Coriscos, Ipanemas, etc. Julgar que elas se enquadram no mesmo criterio de ultraleves construidos em garagens é ingenuidade e uma postura leviana tanto por parte das autoridades quanto por parte dos jornalistas que formam a opinião pública.
    Este acidente, no Campo de Marte, foi uma fatalidade que provavelmente nunca saberemos a causa, assim como o acidente em Santos, com o Eduardo Campos. Tragedias da vida moderna, as quais precisamos nos dedicar a dirimir. Portanto, a aviacao experimental merece mais atenção das autoridades para que possa se desenvolver melhor e de forma mais segura. Se a ANAC simplesmente atualizasse a legislação presente conforme a Europa e os Estados Unidos vem fazendo nos ultimos 20 anos, ja seria um enorme passo. Contudo,infelizmente, no Brasil, a tendência é de colocar TODOS os 5000 avioes experimentais no chão… enquanto isso a ABRAEX prossegue firme, forte e….

  2. vasconcelos
    10 meses ago

    O piloto fala que é uma das melhores aeronaves que já pilotou, agora imagina só quais aeronaves ele já pilotou. Na verdade ta com medo de perder o emprego nestes momentos de crise. Se o CENIPA não investiga é porque sabe que há mais coisas a serem feitas para tornar a aeronave mais segura, agora vem a questão “porque a ANAC autoriza ?”.

    • Márcio
      7 meses ago

      Eu ja pilotei todos os monomotores da Cessna desde o 172 até o Caravan Anfibio. Sou mecanico habilitado e instrutor de voo desde 1999, com quase 3000 horas de voo. Nao sou empregado, sou autonomo, diretor de uma organizacao humanitária. Muita ingrnuidade a sua postar esse tipo de comentario, sobre alguém que é o “dono” do avião.

  3. André.
    10 meses ago

    Uma aeronave experimental pode ser tão segura quanto uma homologada; basta que seja revista e aprimorada da mesma forma. Cada acidente aéreo acrescenta ensinamentos aos fabricantes que não faziam parte de seus projetos originais. O acidente com experimental jamais deveria ficar sem investigação, exclusivamente creditado ao piloto.

  4. Sergio M Costa
    10 meses ago

    Mais uma coisinha para se pensar: o regulamento estabelece, sim, a regra dos 51%.
    Tudo bem.
    Agora, se eu comprasse um kit de RV e me metesse a construí-lo, pelo menos no meu caso, duvido que viesse a ficar tão bem montado quanto o mesmo kit fica quando montado pela Flyer e outras.
    Conheço várias pessoas que têm esta capacidade mas, na média, não diria isto.
    E os construídos pelos “médios” estariam de acordo com o regulamento mas os montados pelos “profissionais”, não !
    A fuselagem de tubos bem como as as estruturas das asas de madeira de meu experimental foram construídas por velhos soldadores e carpinteiros aeronáuticos ainda vivos na época. Eu e meu sócio nunca nos meteríamos a fazer soldas em um avião acrobático.
    Este é o mundo real, para quem ainda não o conhece.

    • Raul Marinho
      10 meses ago

      É esse o ponto, Sérgio!
      Se os aviões da reportagem estivessem sendo montados em um fundo de quintal qualquer, então pode; mas se estão numa oficina ISO-9001, então é irregular!?

  5. Sergio M Costa
    10 meses ago

    Pequeno detalhe: o tal do “disclaimer” (acho que podemos chamar assim) sempre existiu e reflete o que está no Regulamento. Os CAV´s de aeronaves experimentais dos fabricantes “grandes” (digamos assim) costumavam repetir tal afirmação no próprio documento (acho que ainda o fazem).
    Acontece que não se menciona a proibição de sobrevoar áreas habitadas. Menciona-se áreas densamente povoadas, o que é um pouco diferente.
    É claro que o acidente infelizmente ocorrido com nosso colega Bau ocorreu em área densamente povoada. Apenas quero fazer esta ressalva.
    Mas a grande verdade “verdadeira” é que em Banânia, finge-se o tempo todo em todas as áreas e quando uma infelicidade destas acontece, começa uma discussão sem fim até que todos esqueçam.
    Mas a realidade é outra. Do ponto de vista da regra escrita, experimentais são todos iguais ! Não interessa se são grandes ou pequenos, se é um CompAir, um RV ou um EMB.
    Pensemos nisso sem emoções e com isenção !

  6. Augusto Gentile
    10 meses ago

    Se avião experimental não pode voar em área habitada, acabaram-se os boos de 50 petréis em Manaus…

    • Raul Marinho
      10 meses ago

      E os 500 RVs em Marte, Jacaré, Carlos Prates…

      • A.M.Filho
        10 meses ago

        Durante a reportagem, o repórter perguntou ao piloto do RV se poderia voar sobre área povoada e ele disse que não. Infelizmente, isso não condiz com a prática e as nossas autoridades fecham os olhos para este fato. Se cumprirem a regra, muitas aeronaves experimentais perderão as suas finalidades.

  7. Hubner
    10 meses ago

    Faltou um documento relevante: o plano de voo.

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