“O Brasil está entre os ‘top 5’ do mundo em segurança”. Já leu isso antes?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Sim, se você acompanha as notícias da aviação brasileira, já deve ter lido por aí que “o Brasil está entre os ‘top 5’ do mundo em segurança”. Em 18/11/2015, o portal da ANAC publicou a nota “Brasil entre melhores avaliados em segurança operacional“, que acabou sendo amplamente reproduzida pela imprensa na época, dizendo exatamente a mesma coisa que a nota de ontem, 10/05/2016: “OACI ratifica o Brasil entre os melhores avaliados em segurança operacional” (inclusive com o mesmo erro de português), que deverá sair nos jornais nesta semana. Diferenças: em nov/15, o tal “índice de conformidade” era de 96,49%, e agora, com a sua ratificação, ele caiu para 95,07%. Ninguém explicou por que essa diferença de 1,42% entre uma nota e outra, embora na prática tudo dê na mesma.

Mas… Espere aí! De lá para cá, muita coisa aconteceu! Um avião “experimental” caiu sobre uma casa logo após a decolagem do Campo de Marte, e ele não poderia estar voando sobre uma área densamente povoada, de acordo com o regulamento. Havia plano de voo aprovado pelo DECEA que, por sua vez, checava as informações no banco de dados da ANAC (sistema DCERTA), e mesmo assim a decolagem foi autorizada. Na realidade, consta que esta mesma aeronave já operara sete outras vezes em SBMT, sem problema algum. Isso é conformidade, ICAO?

Mais recentemente, a IFALPA (que, inclusive, é uma entidade ligada à ICAO, que auditou a ANAC), classificou o espaço aéreo brasileiro como “criticamente deficiente” devido ao risco baloeiro, e tascou-lhe um selo “black star”. Isso porque não foi levado em conta outros inúmeros fatores de risco em nosso espaço aéreo, como parapentes e asas deltas cruzando rotas de aeronaves comerciais e da aviação geral, o risco de fauna gerado pelo total descaso ambiental (lixões situados nas cabeceiras de aeroportos), e radares meteorológicos sendo desligados por falta de recursos para pagar a conta de luz. Mas isso não foi problema para que a ANAC obtivesse quase 100% de conformidade, segundo a ICAO.

A questão é: o que é essa tal auditoria “Universal Safety Oversight Audit Programme – Continuous Monitoring Approach (USOAP CMA)”, afinal de contas? Por que o Brasil (5° lugar no ranking) está à frente da França (6°), do Reino Unido (8°), dos EUA (12°) e da Suíça (14°)? Aliás, pelos resultados apresentados, as autoridades americanas e suíças têm muito a aprender com as da Nicarágua (11°) e da Venezuela (9°), é isso mesmo?

Bem… Permitam-me uma digressão. Nos idos de mil novecentos e computador-sem-mouse, este que vos fala era gerente de contas de empresas de grande porte em um banco multinacional. Minhas funções eram (não necessariamente nesta ordem): a)ganhar dinheiro para o banco, principalmente por meio de operações de crédito; e b)não deixar que o banco perdesse dinheiro com essas mesmas operações. Se minhas contas não dessem lucro, eu provavelmente não seria promovido e não ganharia bônus; mas se gerasse perdas… Bem, aí teria que me justificar e, caso tivesse infringido algum item do Manual de Crédito, possivelmente estaria na rua.

Todo ano a gente recebia uma visita da auditoria, composta em sua maioria por auditores “gringos”, que vinham conferir o nosso trabalho. Eles viam de tudo, mas o foco eram as operações problemáticas: aquelas que estavam dando ou tinham possibilidade de dar prejuízo para o banco. E o que interessava era o “grau de conformidade” com o Manual de Crédito, independente de ter ou não prejuízo efetivo. Explico melhor: se, numa dada operação, eu não tivesse feito uma análise de balanço de acordo com os requerimentos, e ainda não tivesse se configurado uma perda para o banco, isso seria muito pior do que uma outra operação com perda efetiva de dinheiro para a instituição, mas que tivesse com todas as formalidades ok. Entenderam o ponto? Eles (os auditores) não estavam lá para punir quem gerisse contas que davam prejuízo (isso era lá com o meu chefe!), e sim para verificar se a gente estava seguindo o Manual! Era uma auditoria com um claro alvo: C-O-N-F-O-R-M-I-D-A-D-E. Igual a essa que a ANAC agora se gaba de ser a ban-ban-ban…

E é claro que, para mim, que era um gerente júnior, com poucas contas e operações mais simples, era muito mais fácil ser aprovado na auditoria do que um gerente senior, com muitas contas de empresas enormes e operações ultra-complexas. No caso da “USOAP CMA”, isso explica porque a Nicarágua está à frente dos EUA, e a Romênia à frente da Suíça…É evidente que é muito mais fácil gerenciar uma operação pequena do que uma gigantesca: imaginem a complexidade operacional da aviação nicaraguense perto da americana!!!

Mas voltando ao tal banco multinacional em que eu trabalhei. Muito tempo depois, já na era do computador-com-mouse (e da internet), houve uma crise no mercado bancário americano, e a instituição foi à falência. Na realidade, o nome do banco existe até hoje, mas isso foi só uma questão de “valor de marca”, pois a pessoa jurídica do banco mesmo teve seu controle assumido pelo Banco Central americano para evitar danos maiores ao mercado. E ele faliu justamente por excesso de prejuízos em operações de crédito, muito embora as auditorias de conformidade estivessem no estado da arte naquela instituição, com conformidade de quase 100%. Algo me diz que os auditores que ficaram desempregados naquela época acabaram indo trabalhar numa certa entidade internacional de aviação civil…

4 comments

  1. Enderson Rafael
    1 ano ago

    né?

  2. Sergio M Costa
    1 ano ago

    Ahh, qual é ?? Pode ??
    Até onde irá isto ?
    A turma não tem nem um pouco de senso de ridículo !!
    Que coisa !

  3. luizsize
    1 ano ago

    Esse é falido marketing operacional da Anac. Terceirização de tudo, inclusive do mérito.

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