O “Curso de Upset Recovery” da EJ – Como é e para que serve

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Estive na sede da EJ Escola de Aeronáutica (Itápolis-SP) na semana passada (25-28/maio de 2016) realizando o “Curso de Upset Recovery”, internacionalmente identificado pela sigla UPRT-Upset Prevention and Recovery Training (e previamente denominado pela EJ como “Curso de Manobras de Confiança”). Já falei sobre este assunto aqui e, embora a versão atual do curso tenha algumas diferenças do original (a principal delas: agora ele é realizado em seis missões, e não mais em oito, como no início), o propósito é o mesmo: “dar confiança” ao piloto para que, uma vez que ele se encontre em uma “situação anormal” – excessivamente cabrado, picado, voando de dorso, estolado, em parafuso, etc. -, haja condições para recuperação e retomada em segurança do voo controlado. No site da EJ há mais detalhes sobre o curso oferecido pela escola, e para quem quiser entender melhor o conceito do treinamento como ele é oferecido no mundo todo, sugiro o vídeo a seguir:

O que quero comentar aqui, entretanto, é como é o curso oferecido pela EJ sob o ponto de vista de quem o faz, e para que ele serve, afinal. Para quem é o curso, acho desnecessário: todo piloto de avião*, desde o mais inexperiente PP (ou Piloto de Recreio/Desportivo) até o PLA mais senior, acredito que não há distinção: todos têm benefícios com o treinamento. Começando, então, com a segunda questão:

Para que serve um curso de Upset Recovery?

Sempre que houver uma chance, por mais remota que seja, de se entrar numa atitude anormal com a aeronave, será necessário saber como sair dela e retomar o voo normal/controlado. Isso pode acontecer por desatenção numa curva base em que não se percebe que a velocidade baixou mais do que o recomendado, numa emergência devido a uma pane de motor, e em diversas outras situações (vide o AF447) – mas, principalmente, quando se entra inadvertidamente em condições meteorológicas abaixo dos mínimos e se perde as referências externas. Em outras palavras: quando o piloto entra numa nuvem e não sabe mais qual é sua verdadeira posição no espaço.

É claro que o ideal é nunca deixar-se encontrar numa situação dessas – estolado, em parafuso, ou numa atitude diferente da intencionalmente pretendida -, mas o fato é que se alguma destas situações virem a ocorrer, é preciso saber como sair de maneira rápida, segura (sem forçar demasiadamente a estrutura da aeronave), e com a menor perda de altitude possível. Tecnicamente falando: o UPRT é um treinamento para evitar que ocorra a LOC-I (perda de controle em voo), que é a maior causa de acidentes fatais na aviação depois que a CFIT (colisão controlada contra o solo) perdeu importância devido aos modernos sistemas de navegação por satélite.

Como é o curso de Upset Recovery

Você pode fazer o seu próprio treinamento de upset recovery voando no avião do aeroclube (ou seu/emprestado), sozinho ou com seu amigo (INVA ou não), numa região não controlada qualquer, é claro. Mas… Será que a aeronave aguenta? Se o treinamento sair de controle, será que você(s) consegue(m) sair da emergência real? O espaço aéreo é adequado? E, principalmente, como será a qualidade da instrução? Para garantir a qualidade e a segurança da instrução é que é interessante realizar o treinamento em um curso planejado e executado especificamente para este fim.

O curso da EJ (que, até onde eu sei, é o único do Brasil que tenha tais características) é oferecido em aviões Cessna-152 Aerobat (muito semelhantes ao C-152 padrão, porém com uma resistência estrutural bem superior), os instrutores são experientes em acrobacias e instrução militar (dois deles ex-pilotos da Esquadrilha da Fumaça da FAB), e a localidade onde os voos acontecem, próximos ao aeródromo de Itápolis-SP (SDIO), é muito pouco frequentada por aeronaves estranhas ao contexto da instrução local (do Aeroclube de Itápolis ou da própria EJ). Portanto, a chance de que algo saia do controle é mínima. O treinamento, por sua vez, é precedida de um ‘ground’ repassando as principais questões aerodinâmicas das manobras, e as aulas práticas possuem briefing/debriefing adequados, com um plano de instrução bastante rigoroso.

É cansativo (muito): cada um dos seis voos de aproximadamente 40min. (são 4h de voo no total, que podem ser em duplo-comando ou como PIC) te deixam nocauteado por umas duas horas . Dá medo: por mais confiança que se tenha no instrutor, ver o mundo girando logo depois do para-brisas é uma situação que dificilmente não será apavorante. Você pode se sentir enjoado, em especial nas primeiras missões (eu enjoei até a quarta…). Mas é inegável que o treinamento possibilite, de fato, um nível muito superior de autoconfiança para o piloto. Se vale a pena? Bem, eu acho que vale.

Concluindo

Aos interessados, eu recomendo verificar junto à escola as condições comerciais, inclusive a hospedagem no alojamento da EJ de Itápolis – mas posso adiantar que, atualmente, o valor do curso está por volta de R$4mil, e as horas podem ser integralmente aproveitadas para o curso de PCA ou de INVA. Considerando que as horas do “Curso de Upset Recovery” podem se transformar em horas de voo de instrução do curso de PCA, o seu custo marginal será cerca de 2-3% do custo total de formação de PPA+PCA. Neste caso, o custo/benefício do curso fica muito mais atraente.

Para pilotos da aviação geral, também é possível realizar o treinamento total ou parcialmente na própria aeronave (ou na aeronave do patrão, se for o caso) – mas, para isso, é preciso verificar a viabilidade técnica com os instrutores da EJ. Pode-se ir voando para Itápolis, deixar a aeronave hangarada na escola (seja ela utilizada ou não no treinamento), e ficar hospedado lá, o que facilita bastante a logística do treinamento. A propósito, as instalações do alojamento são muito bem montadas, com ar-condicionado e frigobar, serviço de arrumadeira, TV a cabo e wifi – além de restaurante e coffee-shop, piscina, quadra de esportes, etc.

O Curso de Upset Recovery da EJ não é um treinamento certificado pela ANAC (apesar de, como disse antes, suas horas poderem ser “aproveitadas” nos cursos de PCA ou de INVA). Na realidade, de acordo com o vídeo acima, foi só em 2014 que a ICAO reconheceu a importância do UPRT, então acredito que leve algum tempo até que a ANAC “oficialize” tal treinamento. Mas caso você se encontre em uma situação real de desorientação/estol/parafuso, essa falta de certificação não deverá fazer a menor diferença…

*Obs.: Para pilotos de helicóptero interessados no UPRT, sugiro este artigo que fala dos benefícios que o treinamento em avião podem trazer para pilotos de helicóptero.

9 comments

  1. Enderson Rafael
    1 ano ago

    No meu treinamento de PP, upset recovery era parte integrante, pois assim é o programa da FAA. Não chegávamos a fazer parafusos – a menos que pedíssemos, pois não era obrigado – mas abrir os olhos e ver uma estrada com um carro passando em frente ao para-brisas não era incomum. Tivemos que fazer upset sem hood e com hood. Se está pra baixo, primeiro nivela as asas e depois levanta o nariz. Se está pra cima, primeiro abaixa o nariz, depois nivela as asas. E por aí vai… O upset que fazemos no simulador é mais light – até porque no simulador dificilmente vc morre: no máximo perde o emprego. E também porque os parâmetros de upset num jato comercial são mais estritos: 25 pra cima, 10 pra baixo, 45 pros lados. Então antes de ficar muito ruim vc já está recuperando. Mesmo num mono saindo do chão em CGH é comum decolar sem tocar “bank angle”. De qualquer forma, o treinamento é mto necessário e bem-vindo.

    Quanto ao oferecido pela EJ, tenho mais vontade que coragem e dinheiro.

  2. Aviador
    1 ano ago

    Não pode “aproveitar” as horas dentro de um curso homologado. Pq na homologação do curso, certamente tal treinamento não faz parte.

    • No curso do PC não vejo por que não. Você poderia lançar essas horas PIC nas 20 horas de voo local que sobram no decorrer do curso. Agora, para o INVA, eu acredito que não tenha validade essas 4 horas.

      • Raul Marinho
        1 ano ago

        Formalmente, o que temos é uma aeronave PRI homologada VFR diurno cujo operador é a EJ e um piloto com habilitação de INVA, registrado como instrutor da mesma escola.Dentro deste escopo, poder-se-ia realizar um voo de instrução dos cursos de PCA ou de INVA desde que não fosse noturno e/ou IFR (lembrando que o “Curso de Upset Recovery” não é um treinamento certificado pela ANAC) e o aluno estivesse regularmente matriculado na escola, num dos dois cursos. Se o aluno não estivesse matriculado num curso de PCA ou de INVA da EJ, ele deveria solicitar sua transferência para a EJ e, posteriormente, uma nova transferência de volta para a escola original.
        No caso de aluno de curso de PCA, essas 4h poderiam ser encaixadas tanto como voo em comando local, tanto como voo em voo de duplo-comando local (ambos VFR/MNTE), dependendo dos interesses e possibilidades. No caso de aluno de aluno de curso de INVA, o mais adequado seria encaixar essas 4h na Fase-I/Adaptação (5h30min), que inclusive requer várias das manobras do UPRT, como estóis e curvas de grande inclinação.

        • Aviador
          1 ano ago

          Raul, não pode. As escolas que possuem homologação do curso prático de PCA e de INVA são obrigadas (a não ser que tenham uma autorização expressa do contrário) a seguirem os manuais de curso publicados pela ANAC. Nesses manuais não há previsão desse tipo de treinamento dentro dos cursos de PCA eINVA.

          • Raul Marinho
            1 ano ago

            É exatamente essa a questão: o manual continua sendo seguido. Só que o manual não impede que você faça algo além do mínimo requerido, certo? Se uma determinada missão requer que você faça 4 pousos, se você fizer 5, então está irregular? Claro que não: o que seria incorreto seria fazer 3.

            • Aviador
              1 ano ago

              Certo, então nesse caso as horas desse treinamento não seriam “aproveitadas” mas sim acrescidas ao treinamento. Ou seja, o aluno acabaria o curso com mais horas do que o mínimo exigido no manual de curso.

              • Raul Marinho
                1 ano ago

                Negativo, o treinamento de manobras de UPRT acontecem no contexto das missões dos cursos certificados.

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