“Hora seca” (aquisição de pacotes de horas de voo de instrução sem o valor do combustível incluso): o que é, como funciona e quais as vantagens

“Hora seca” (aquisição de pacotes de horas de voo de instrução sem o valor do combustível incluso): o que é, como funciona e quais as vantagens

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Quem conhece o funcionamento das aviation schools americanas já deve ter ouvido falar do termo “dry rental”, que significa que você está pagando pela hora de voo “seca” – isto é: sem incluir o combustível utilizado pela aeronave durante o voo. Aqui no Brasil, o usual é que se pague o custo total da hora de voo ao aeroclube/escola de aviação, que nos EUA é conhecido pelo termo “wet rental”. (Este artigo da AOPA explica a diferença entre as modalidades de aquisição de horas de voo de instrução utilizadas nos EUA).

Mas há alguns meses, a Voe Floripa, uma escola de aviação sediada em Florianópolis-SC, começou com a modalidade de “hora seca” no Brasil, de maneira análoga ao “dry rental” americano, e hoje isso já representa cerca de 20% dos pacotes de horas de voo de instrução comercializados pela instituição. Diversas outras escolas também estão começando a adotar o modelo, que apresenta diversas vantagens sobre o formato tradicional.

No “wet rental” (modelo tradicional) o aluno paga o valor integral da hora de voo ao aeroclube/escola, e este, por sua vez, paga suas despesas, apurando o lucro. Parte do custo da operação não requer desembolso imediato (por exemplo: as revisões da aeronave, que acontecem de tempos em tempos), e parte requer. Nesta última categoria, a parte mais sensível é o combustível, não só pela sua relevância – sozinho, representa cerca de ¼ do valor total da hora de voo! –, mas também pela volatilidade: o valor da Avgas sofre aumentos inesperados ao longo do tempo, imprevisíveis para o dirigente do aeroclube/escola de aviação.

Daí surge a primeira vantagem da “hora seca”: como ela traz maior segurança para quem vende as horas de voo (o aeroclube/escola de aviação), é possível oferecer condições mais vantajosas para quem as compra (os alunos) – na prática, isso pode se traduzir em descontos ou em prazos de pagamento mais dilatados. Outra vantagem que tem impacto direto no preço é a questão tributária, uma vez que no modelo tradicional, o aeroclube/escola paga seus impostos sobre uma base maior do que no esquema de “hora seca”, uma vez que inclui o valor do combustível, conforme o exemplo abaixo (os valores e percentuais são meramente ilustrativos):

  • Modelo tradicional:
    • Valor pago pela hora de voo: $400
    • (-) Impostos sobre o faturamento (20%): $80 (A)
    • (-) Custo do combustível pago pela escola: $100
    • (=) Margem da escola (receita – impostos e combustível): $220
  • Modelo de “hora seca”:
    • Valor pago pela hora de voo: $300
    • (-) Impostos sobre o faturamento (20%): $60 (B)
    • (-) Custo do combustível pago pela escola: $0 (os $100 são pagos à parte pelo aluno)
    • (=) Margem da escola (receita – impostos e combustível): $240

Como há uma economia de $20 no modelo de “hora seca” (A – B), o aumento da margem do aeroclube/escola pode se converter em desconto ao aluno. Na verdade, se a vantagem tributária fosse integralmente repassada ao preço (que seria, então, de $380 – $280 para a escola e $100 para o revendedor de Avgas), os impostos ficariam ainda menores, já que a base de cálculo teria se reduzido. No exemplo acima, os impostos cairiam para $56 (20% x $280) – ou seja: mais $4 seriam economizados em impostos.

Além disso, a “hora seca” é mais justa, pois o voo que gasta menos combustível (por exemplo: um voo de navegação, que permite o empobrecimento da mistura) sai mais em conta do que o voo que consome mais Avgas, como os TGLs feitos com mistura rica o tempo todo. E a eventual desvantagem do modelo, que seria o menor poder de barganha do aluno sozinho para comprar o combustível é anulada pelo fato de a escola repassar os preços da negociação em grande volume para os alunos (pelo menos, na Voe Floripa é assim).

Eu acredito que este novo modelo de comercialização de pacotes de horas de voo de instrução sem o valor do combustível incluso, a “hora seca”, deva se expandir bastante no mercado brasileiro, e talvez se tornar o mais comum no médio prazo. Há outras aplicações para o modelo, como uma curiosa situação que o pessoal da Voe Floripa me contou: um pai de aluno adquiriu um pacto de “horas secas” para o filho e combinou que ele é quem deveria arcar com o custo do combustível. Foi a forma com que aquele pai de aluno encontrou para dividir as responsabilidades da formação aeronáutica com seu filho. Interessante, não?

7 comments

  1. Sergio
    10 meses ago

    Excelente iniciativa. Escola feita por profissionais com mentalidade e atitude de primeiro mundo.
    Que sirva de exemplo para outros empresários Brasileiros.

  2. david weber
    10 meses ago

    VoeFloripa é excelente e está a frente da maioria das escolas e aeroclubes do Brasil. Gostei muito de tudo o que a escola me ofereceu e dou boas referências sempre que perguntado.

  3. Milton
    10 meses ago

    Helicóptero Full Tank é complicado… se pegar um R22 com aluno e instrutor beirando os 90kg cada, já passa dos 622kg totais. Pega SBMT numa tarde quente, 2400 pés, 32 graus, acho que o heli não sobe não…

  4. Eduardo
    10 meses ago

    Pois é Raul, teríamos que pensar com muita atenção sobre a falta de poder de barganha dos alunos (em Marte as escolas tem um grande poder) e também o fato de o aluno por exemplo comprar 70 litros e usar apenas 50. Acho a idéia muito boa, no entanto (pelo menos aqui) alguns detalhes teriam que ser alinhados.

    • Raul Marinho
      10 meses ago

      Se a escola deixar o aluno “se virar” para comprar o combustível, isso realmente poderia acontecer. No caso que eu pesquisei, da escola de Florianópolis, eles transferiram as condições comerciais obtidas com o fornecedor para os alunos. É mais ou menos como o esquema do “Peixe Urbano”, de compras coletivas, em que as condições são extensíveis a todos os membros do grupo, embora o pagamento em si seja individualizado.

      • Pacelli Francesco
        10 meses ago

        Raul, e o que acontece com o combustível que o aluno não usa como citado pelo Eduardo.

        • Raul Marinho
          10 meses ago

          No modelo da Voe Floripa, o aluno pega a aeronave full tank, voa e a devolve full tank após a missão, pagando o revendedor de Avgas com dinheiro, cheque ou cartão diretamente. Não há, portanto, essa possibilidade de “sobra” de combustível. Não posso afirmar nada sobre eventuais modelos em que o aluno tenha que adquirir antecipadamente determinadas quantidades de combustível.

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