Sinais do “apagão de pilotos” dos EUA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Está ocorrendo na aviação americana neste momento um “pilot shortage“, que seria equivalente ao “apagão de pilotos” que se falou no Brasil alguns anos atrás. ‘Só que não’: nos EUA, as causas do “shortage/apagão” (que, na verdade, HOJE é muito mais uma questão salarial, especialmente na aviação regional – mas que pode vir a se tornar uma efetiva falta de profissionais no médio/longo prazo) são estruturais, e não fruto do “voo de galinha” da nossa economia na era Lula, que foi a causa do “apagão” brasileiro. (Lembrando que no caso brasileiro nunca chegou a faltar pilotos de verdade, houve sim uma expectativa de escassez de mão-de-obra que nunca se concretizou).

O “pilot shortage” americano está ocorrendo porque houve mudança na regulamentação da FAA (quando passou-se a exigir 1.500h para copilotos de linha aérea, regional ou ‘major‘), a crise na aviação do período pós-11/set está cobrando agora o seu preço (houve um desinteresse acentuado pela carreira de piloto por muito tempo após os atentados), e mesmo a crise do petróleo contribui, já que o combustível nunca esteve tão barato – o que derruba o preço das passagens, aumenta a demanda, e por consequência a necessidade de contratar mais pilotos para atendê-la. O fato de companhias aéreas asiáticas e árabes também estarem em crescimento acentuado e o mercado de TI (Google, Apple, Facebook, toda a ‘Economia Colaborativa’ dos AirBNB e Uber da vida, etc.) estarem atraindo muito mais o interesse dos jovens do que a aviação atualmente também pesam.

Bem, mas o fato é que as consequências do “pilot shortage” estão ficando cada vez mais visíveis. Há semelhanças de forma com o “apagão” brasileiro, como a proliferação de matérias motivacionais na imprensa, vide “Become a Pilot – It’s breathtaking. It’s soulful. You won’t take your work home. And aviation desperately needs you” – só que muitíssimo mais bem escritas. (Vale a pena ler! E se sua proficiência em inglês não for das melhores, só as imagens já valem a pena).

Mas há também consequências econômicas bem diferentes das que ocorreram no Brasil dos anos 2008-11. A primeira é que, nos EUA, os salários realmente estão subindo nas companhias regionais americanas – que é o corolário da citação deste post aqui publicado em 2011: “[escassez de mão-de-obra] é quando aumenta a demanda e, como resultado de mais gente querendo contratar, os salários sobem” (o autor foi o economista Cláudio de Moura e Castro para um artigo da revista Veja). Um ano atrás, um copiloto do segmento regional ganhava cerca de US$25-30mil/ano, e hoje este salário já está tendendo para os US$40-50mil/ano. Ainda não é muito para os padrões americanos (embora seja equivalente em reais ao de alguns comandantes de ‘major’ brasileira), mas é um crescimento salarial de praticamente 100% no segmento em pouquíssimo tempo. Tal efeito jamais foi percebido no mercado de trabalho brasileiro de pilotos – pelo menos, não com tamanha intensidade.

A consequência mais impressionante, porém, tem sido os esquemas de formação de pilotos que algumas escolas de aviação americana têm oferecido em parceria com companhias regionais (infelizmente esses esquemas não tem sido disponibilizados para estrangeiros, a não ser que eles possuam o Green Card). Vejam, por exemplo, o Airline Sponsored Career Track” da ATP Flight School, realizado em parceria com diversas empresas regionais dos EUA. Basicamente, é o seguinte: o aluno financia sua formação básica até a habilitação de CFI (equivalente ao nosso INVA) e, uma vez formado, começa a dar instrução na própria escola. Quando o agora instrutor atinge o patamar de 300-500h de voo totais, lhe é oferecido um contrato em que uma companhia regional começa a pagar parte do financiamento de sua formação com um adicional de US$5/hora de instrução – se for atingido o patamar de 80h/mês de instrução, pode-se chegar a um adicional mensal de US$400. O esquema segue assim até o sujeito ingressar na companhia aérea que lhe pagava os US$5/hora, quando o bônus mensal passa a ser de US$500/mês fixos pelo primeiro ano. No total, esta bonificação pode chegar a US$11mil.

Outro esquema de formação em parceria com companhia aérea regional é o “Epic Pilot Sponsorship – Trans States Airlines“, que oferece uma drástica redução no custo de obtenção das carteiras de instrutor do aluno (que pode chegar a zero) na Epic Flight Academy, e envia o piloto para as primeiras entrevistas na Trans States quando houver uma perspectiva de o sujeito atingir as 1.500h em 90d. Novamente neste caso, há a necessidade de ser cidadão americano ou, pelo menos, ter um visto de trabalho válido nos EUA. Mas o fato é que, mesmo sem um “esquema” pré-montado como os acima citados, as companhias aéreas regionais estão muito agressivas e procurando por oportunidades em todo o mercado de instrução. Em relação a oportunidades para brasileiros, há o caso citado neste post, mas ainda não há um produto voltado a pilotos brasileiros. Não ainda, pelo menos…

6 comments

  1. Enderson Rafael
    1 ano ago

    Follow the money… tem regional pagando 1000 dolares por indicação, e 15mil pro indicado. Sem, falar que os salários estão sim subindo a olhos vistos, o pessoal ganha a mais por ano que fica lá, commuting garantido, hotel na base… Se isso não é um shortage de verdade, então não sei o que é.

  2. Carlos Pera
    1 ano ago

    Olá Raul…Antes de mais nada parabéns pelo seu Blog e pelo seu artigo onde na atual conjuntura; traduz no momento toda a realidade do mercado da aviação no mundo atual, onde os países Latino Americano tornaram-se um celeiro de pilotos para o resto do planeta!
    Em segundo lugar, concordo com os comentários do Henrique….
    Ano passado tive a oportunidade como FAA TCE/SFE (EMB500/505) de ministrar treinamentos e Cheques na CAE Simuflite em DFW…tive oportunidade de conversar sobre o aquecimento do mercado das 121 com vários pilotos da GA; onde a ordem do dia se tratava de Pilotos executiva e 135 estarem sendo contratados pelas grandes Aéreas (UAL – DAL – AAR – SWA). Interessante que a 1 mês atrás um desses Pilotos que tive a oportunidade de ministrar “recurrent training” me deu a notícia que estava feliz pois finalmente tinha sido contratado pela UAL voando B767-300 e que “time to time” estava pernoitando em São Paulo. E nas trocas de e-mail ele me disse que o salário no primeiro ano de contrato não era nada atrativo em relação ao que ele ganhava na Executiva; muitas vezes menos da metade do que estavam recebendo. Porem para ele e muito outros colegas; o grande atrativo era o fato de iniciar uma carreira na comercial e voando “state of art aeroplanes” com escala de voo regular e com um atrativo de ter tido uma melhora significativa no estilo de vida familiar…e me confidenciou que a debandada de pilotos para as Empresas Aéreas era uma realidade que não se via a muito tempo nos USA! E para finalizar me perguntou; já que sempre voei na Comercial; o que eu achava da tomada de decisão dele!
    E respondi o seguinte… “Creio que só o tempo dirá, porém em termos de ganhar ou perder; as vezes você perde o que não queira, mais conquista o que nunca imaginou…pois nem tudo depende de um tempo, mas sim de uma atitude!” Mais na minha opinião eu tenho certeza que ele tomou atitude correta.

    Meus respeitos.

    • vai vendo...
      1 ano ago

      Bom negócio.
      Foi ganhar a metade do que ganhava, apenas pelo fato de voar na comercial?
      Talvez seja por isso que as companhias aéreas nos tratam desse jeito….sabem que aceitamos qualquer coisa pra voar pra eles…

  3. samuel
    1 ano ago

    Mais uma propaganda da midia, igual o apagão de piloto no Brasil, lá vai um monte de gente a fazer cursos e mais cursos nos EUA, (quem tem dinheiro, pra rasgar) casando pra obter cidadania, em fim….

  4. Henrique Fernandes
    1 ano ago

    Raul, onde você viu que o salário de um copila regional pode chegar a US$ 50 mil/ano? A história por aqui parece bem diferente. Muitos professores e colegas aqui na Embry-Riddle falam de não mais de US$ 25 mil/ano ainda. E muitos recém-formados estão caçando a executiva adoidado (que felizmente paga bem e infelizmente requer 2.000 horas de experiência pra jato).

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