Falta de padronização na instrução de voo: um trágico caso real

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Sou um grande entusiasta do EPIA – em minha opinião, o melhor “produto” de cultura de segurança de voo à disposição no mercado brasileiro. Como o nome diz, o Estágio de Padronização da Instrução Aeronáutica tem por principal objetivo atacar esta que é uma característica marcante da cultura brasileira – a informalidade/despadronização -, que não costuma dar em boa coisa quando aplicada à aviação. Na fase de instrução de voo, então, tanto pior: além do fato de esta atividade ter um nível de risco superior ao da maioria das demais, há o efeito “perenizador”, digamos assim. Uma vez que o aluno aprende a voar de maneira despadronizada, as chances de que ele assim se comporte durante toda a sua vida profissional aumentam significativamente.

Na próxima edição do EPIA, que ocorrerá em Curitiba, deverá haver um estudo de caso de um acidente ocorrido em 2013 com uma aeronave do Aeroclube do Ceará em Teresina – que, dentre os fatores contribuintes identificados na investigação do CENIPA, está justamente a falta de padronização, vide abaixo:

rfacceO acidente se deu durante um procedimento de toque-e-arremetida, num voo noturno em que ocorreu uma falha de motor logo após a segunda decolagem/arremetida: a aeronave (um Cessna 172) perdeu potência e colidiu contra o solo a 130m da cabeceira da pista do aeroporto de Teresina. Houve incêndio, e todos os QUATRO ocupantes do avião – o instrutor, seu aluno do curso de PP, e dois passageiros (!!!) – morreram carbonizados. Vejam mais alguns detalhes do RF do PT-CNL no trecho abaixo reproduzido (item 2 – Análise):

(…)

Tudo leva a crer que o ruído anormal do funcionamento do motor, observado por alguns pilotos, dias antes da data do acidente, estivesse relacionado à detonação, também conhecida por “batida de pino”.

(…)

O ACCE encontrava-se com a autorização de funcionamento em dia e, para ministrar o curso prático de pilotagem em município distante de sua sede administrativa, não houve a solicitação de autorização especial para curso fora de sede, como prevê o RBHA 141.87.Este fato concorreu para que deixasse de haver uma atuação oportuna do órgão de fiscalização da aviação civil, no sentido de que aquela agência pudesse se certificar, dentre outros aspectos, de que a instrução prática de voo transcorria de forma adequada em Teresina, principalmente, no que se refere à supervisão das atividades aéreas realizadas pelo ACCE.

Com base nos cálculos realizados levando-se em consideração a média do peso dos seus quatro ocupantes – 80kg – e do combustível abastecido antes do voo (82kg), observou-se que a aeronave se encontrava no mínimo com 58kg acima do seu PMD, porém, dentro dos limites do centro de gravidade (CG) especificados pelo fabricante.

Em razão da pouca experiência na realização de voos noturnos e do comportamento descrito pelos seus colegas, não se pode descartar a possibilidade de o instrutor ter demorado a identificar a falha do motor, deixando de reagir oportunamente visando evitar a perda do controle da aeronave.

Tais traços de comportamento, aparentemente, estiveram presentes no momento em que não houve resistência para o embarque de passageiros na aeronave, mesmo tratando-se de uma atividade de instrução.

Segundo informação prestada pela administração do ACCE, para efeito da instrução prática de voo em Teresina, o instrutor acumulava a atividade de coordenador de curso. Este fato, além de contrariar a letra (c) do RBHA 141.87, pois o instrutor não tinha a experiência mínima de dois anos, estabelecida na letra (a) do RBHA 141.35, para exercer a função de coordenador de curso, impediu que o ACCE exercesse uma supervisão adequada das atividades de instrução realizadas em local distante de sua sede, já que as duas tarefas eram cumpridas pela mesma pessoa.

A presença de passageiros a bordo da aeronave durante a realização de vários voos de instrução realizados em Teresina, contrariando o regimento interno do ACCE e a letra (c) do RBAC 61.237, bem como a operação da aeronave com o horizonte artificial em pane, foram reflexos dessa supervisão inadequada.

O aluno piloto envolvido no acidente realizava voo de instrução visando à obtenção da habilitação de piloto privado, o que, por sua vez, tratava-se de um dos requisitos para a conclusão do curso superior de pilotagem profissional de aeronaves ministrado pela Faculdade Centro Educacional de Teresina (CET).

O fato de várias instituições de ensino superior, responsáveis pelos cursos de pilotagem profissional de aeronaves ou de ciências aeronáuticas, não ministrarem instrução prática de voo, leva a uma busca intensa de seus alunos por escolas que atuam na formação de pilotos privados, dentre elas, os aeroclubes.

Entretanto, a falta de dispositivo regulamentar que estabeleça o compartilhamento de dados entre essas faculdades, as escolas de formação de pilotos e a ANAC, impossibilita que a aquela agência monitore adequadamente as condições nas quais são oferecidos os cursos práticos de voo para esses alunos, notadamente, no que se refere à aeronavegabilidade das aeronaves, capacitação técnica dos instrutores e supervisão da instrução aérea.

No caso deste acidente aeronáutico, a falta de um estabelecimento oportuno e adequado de informações entre o ACCE e o órgão de fiscalização da aviação civil, pode ter concorrido para o surgimento de um cenário caracterizado pelos fatores contribuintes identificados.

No âmbito do aspecto psicológico, foram identificadas ainda outras variáveis envolvidas neste acidente. A proximidade existente na relação entre o diretor do aeroclube e o instrutor pode ter contribuído para o estabelecimento de uma confiança excessiva na atuação do instrutor, permitindo que este assumisse a responsabilidade de oferecer instrução em Teresina mesmo não atendendo aos requisitos para ser coordenador do  curso e sem supervisão do próprio aeroclube.

Ao considerar os dados levantados, essa falta de supervisão mostrou-se como uma consequência da estrutura de trabalho estabelecida pelo aeroclube, na qual o gerenciamento e os sistemas de controle e de responsabilidade não estavam plenamente implantados.

Tal fato também contribuiu para a falta de padronização das instruções ministradas, que, conforme levantado, era reflexo da cultura estabelecida entre os instrutores de voo, caracterizada pela individualização e pela informalidade das ações adotadas nas  instruções.

Dá para perceber pelo texto acima que o acidente começou a acontecer muito antes daquela fatídica noite. No EPIA de Curitiba, os profissionais de investigação e prevenção de acidentes do SERIPA-V terão a oportunidade de explicar com muito mais competência do que eu como cada fator contribuinte atuou para o desfecho trágico deste acidente – portanto, eis aí mais um motivo para você não deixar de comparecer ao evento. E não deixe de ler o Relatório Final para poder aproveitar melhor os debates!

8 comments

  1. João Paulo
    7 meses ago

    Ainda sobre falta de padronização e outras coisas:

    https://m.youtube.com/watch?v=wRTx-cmQSF4

  2. André.
    8 meses ago

    Eu nem sei se “falta de padronização” seria a correta classificação de toda esta estória; faltou mesmo foi estrutura (e fiscalização).
    Tinha regulamento para comunicar instrução fora do aeroclube – foi esquecido ou não foi cumprido?
    Tinha regulamento para não acumulação de cargo de instrutor e coordenador de curso etc etc.

    Agora, vamos esquecer por um momento o ACCE acima citado. Como já se nota por alguns comentários acima, sobra regulamento, sobra ANAC, sobra um monte de coisas quando vc tem aeroclubes sucateados, funcionando de forma improvisada, mambembe, a força da quase-teimosia de algumas pessoas que lutam para manter a instrução de vôo. Na maioria, vítimas de si próprias.

    Não há dinheiro que chegue para manter uma aeronave, hangar, manutenção, impostos, taxas e mais taxas etc. Então vai assim: fecha os olhos pra isso, esquece aquilo… Adicione umas gotas de auto-confiança… Improvise aqui e ali…

    Enquanto isso, em Brasília, sobra dinheiro para certos aumentos, certas verbas de gabinete etc.
    Retratos de um Brasil desmantelado.

    Meu sonho era morar no Brasil que aparece nas propagandas do governo. Isso sim! Cada hospital bacana, corredores vazios, limpos! E as escolas? Toda a meninada de uniforme novo.

    Dava tudo pra ver um aeroclube de propaganda… esquece o boero, esquece o 172. Ia todo PP voar tucano prá já ira acostumando com o jatinho do PC…

  3. Fulano
    8 meses ago

    A falta de profissionalismo de alguns INVAS (postura com a qual muitos dirigentes são ou coniventes ou até mesmo indiferentes) é algo que tem me incomodado bastante.Nós (alunos PP, PC, INVA ou seja lá o que for)deixamos uma GRANA nos aeroclubes/escolas de aviação e, muitas vezes, o retorno não é o esperado.No aeroclube onde voo, instrutor não faz briefing.Vez ou outra um checklist é deixado de lado pra agilizar as operações.Instrutor sai pra voar com aluno sem saber em qual missão o cara está.E isso ainda é pouco…Já vi coisas que prefiro não relatar aqui.No final das contas, frutos da macheza e ignorância daqueles que, futuramente, serão meus colegas de profissão.

    • Raul Marinho
      8 meses ago

      Bem, Fulano… O que posso te dizer é: mude de aeroclube urgente! Ou interrompa sua formação, se for o caso. Isso aconteceu comigo também numa dada etapa da minha formação de PC, eu relevei (afinal, era mais barato, mais prático, etc.), e só me dei conta do risco que estava correndo quando tomei uma pane de motor parcial na decolagem que quase resulta num acidente. Hoje me arrependo de duas coisas: de não ter saído de lá antes, e de não ter comunicado o fato às autoridades.

      • Fulano
        8 meses ago

        Não posso parar de voar lá imediatamente pois comprei pacote de 40h.Mas uma coisa é certa: depois que eu checar o PP, nunca mais coloco meus pés ali.Como se não bastasse o padrão lixo da instrução, a manutenção (que é o que mais me preocupa) deixa a desejar.Grande abraço.

  4. Luiz C
    8 meses ago

    Tudo errado! Até o nome do aeroclube.

  5. Gustavo
    8 meses ago

    Ahh… a falta de profissionalismo….

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