O programa do ‘Fantástico’ sobre “o voo dos irresponsáveis”: ‘ô lôco, meu!’

O programa do ‘Fantástico’ sobre “o voo dos irresponsáveis”: ‘ô lôco, meu!’

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O programa Fantástico, exibido nas noites de domingo pela TV Globo, apresentou no dia 12/06/2016 uma matéria sobre o que os apresentadores anunciam como “o voo dos irresponsáveis”. Na web, o título da matéria é mais adequado: “Imagens mostram piruetas arriscadas nos céus de São Paulo e Minas” (embora “piruetas” mesmo, não as há). Sim, porque, a despeito do seu tom jornalístico, o que se vê na maior parte dos 4min:47seg seguintes é simplesmente isso: imagens de aeronaves executando manobras (se realmente arriscadas, é mais difícil dizer em alguns casos). Em essência, nada muito diferente do que acabara de ser exibido minutos antes pelo programa que o antecede na grade da emissora (o Domingão do Faustão): as célebres videocassetadas. Em ambos os casos, o objetivo é o entretenimento, seja com as imagens do gorducho caindo no riacho, seja com os gritos dos banhistas se assustando com o helicóptero. Não são apresentadas estatísticas, comparações com outros países, relatórios, etc. Não se sabe se estes eventos estão mais comuns, se as autuações estão mais frequentes, como os casos terminam na Justiça, quantos destas alegadas irresponsabilidades terminaram em acidentes… Enfim, não há praticamente nada além do impacto das imagens e de comentários vagos de “experts” no assunto. Portanto, não é jornalismo – apesar do tom.

São cinco conjuntos de imagens de aeronaves executando as tais manobras que são mostrados no programa. No primeiro, vê-se uma exibição do “voo do bêbado” em um show aéreo, quando é simulado um sequestro de aeronave por um piloto alcoolizado. É claro que nem o piloto está realmente sob efeito de álcool e nem é um sequestro de fato. Mas o espectador que está “deitado no sofá enrolado no cobertor que nem uma salsicha no pão do cachorro quente” (como diria o apresentador do Domingão), que acabou de ouvir ao longe alguém falar em “irresponsáveis”, vê aquilo meio atordoado e pode não entender direito o que se passa. Logo em seguida, aparecem imagens de um helicóptero dando um rasante sobre banhistas, de um Cessna 182 voando em direção a um quiosque na beira de um rio, de um Baron e um Seneca voando em uma formação lado a lado a baixíssima altura e, para fechar, de um avião agrícola passando sob uma ponte. Todos igualmente “voos de irresponsáveis”, certo? “Até piloto bêbado tinha!”.

O fato é que as imagens mostradas são de coisas muito diferentes. Passar sob uma ponte com um avião ou dar rasantes sobre banhistas e pessoas num churrasco à beira rio pode ser mesmo uma irresponsabilidade; mas e quanto ao “voo do bêbado” do show aéreo que aparece logo no início da matéria? Antes de prosseguir, veja as imagens abaixo, de uma exibição de mesma natureza ocorrida nos EUA:

O vídeo acima está no Youtube desde 2010, mas o “voo do bêbado” é bem mais antigo do que isso. Trata-se, em verdade, de uma apresentação muito popular mundo afora e que, lamentavelmente, estava meio sumida dos shows aéreos brasileiros. Diferente das acrobacias da Esquadrilha da Fumaça, por exemplo, milimetricamente coordenadas e cronometradas, a graça do “voo do bêbado” é justamente a impressão de que o piloto está improvisando suas manobras. No exemplo americano, até raspa-se as pontas das asas na pista e, suprema heresia à segurança de voo, o piloto abandona a aeronave com a hélice ainda girando! Se isso passa no Fantástico, em minutos uma horda vai para o vão livre do MASP protestar contra a falta de segurança.

Não sou expert em regulamentação acrobática, mas ao que parece não ocorrem acrobacias realmente no evento do aeroclube ocorrido no Brasil (pelo menos, não nas imagens que aparecem na matéria do Fantástico) – a não ser que se considerem voos derrapados, glissados ou com a asa desnivelada “acrobacias aéreas”. Todavia, o representante da ANAC fala que o aeroclube não comunicou a realização do evento à Agência, o que seria uma falta grave, punida com a suspensão e, talvez, uma multa. E, logo em seguida, o “show da vida” prossegue com o caso do russo que cria um urso dentro de casa. Com todo mundo achando que show aéreo sem comunicação prévia é uma irresponsabilidade tão grave quanto passar com o avião sob uma ponte.

21 comments

  1. Valtemir Tambarussi
    1 ano ago

    O que vejo na matéria de Itápolis é pura politicagem! Tentam denegrir pessoas que revitalizaram e estruturaram o Aeroclube de Itápolis. Muitos pilotos formados aqui pilotam pelo mundo todo, e são pilotos conceituados e de um profissionalismo impar!

  2. Rubens
    1 ano ago

    O que me chocou foi a falta de padronização e profissionalismo na aviação. Neste e em outros foruns tem piloto defendendo e piloto metendo o pau com a mesma convicção , o mesmo vigor.
    Se houvesse um minimo de padronização na aviação, as opinioes seriam mais convergentes.
    Sem falar na personalização …”se fulano permitiu esta tudo OK” …..”o cicrano não tem competencia para avaliar”…” o beltrano é competente se ele fez ta certo”.
    Cadê o profissionalismo que tanto se prega na aviação?
    Esta provado: vivemos numa republica de bananas!
    Senti vergonha com algumas coisas que vi e outras que li.

  3. Rui
    1 ano ago

    O vôo bêbado já era feito pelo Bertelli na década de 70. Não tem nada de irresponsável.

    • Dan White
      1 ano ago

      1970 Rui!
      Outra época, outra cultura, outro conhecimento aeronáutico…
      V.Sa. sabe bem que muito do já foi aceito antigamente não é mais cabível atualmente.

      • Rui
        1 ano ago

        Vê no Google quem foi Alberto Bertelli . Os Paulistinhas de antigamente era usado para estas apresentações.

  4. Carlos Pera
    1 ano ago

    Viajaram na maionese!
    Absurdo, bobeira, coisa sem sentido nessa reportagem do Fantástico e que foi exibida na TV TEM no Jornal Local de meio dia na 2ª feira!
    Coisas de Brasil!

  5. Hercules Breseghelo
    1 ano ago

    Eu estava lá. Havia SIM ISOLAMENTO DA ÁREA e, em nenhum momento, qualquer manobra foi praticada fora do alinhamento da pista.Outra coisa: O PILOTO É UM EXPERT EM ACROBACIAS. Esse chamado “vôo do bêbado” é praticado no mundo todo.Aqui no Brasil o Alberto Bertelli sempre executou essas manobras.nas centenas de exibições que fez pelo Brasil e América do Sul.Quanto a reportagem exibida pelo “CHATASTICO”, mostra muito bem a falta de profissionalismo e despreparo dos profissionais encarregados de colocar no ar reportagems desprovidas de qualquer conhecimento técnico.

  6. JOSE PEDRO BITTENCOURT
    1 ano ago

    ESSES CHOU SÃO MUITOS LINDOS E SEGURO MOSTRA A CONPETENCIA E A FRIEZA DE UM GRANDE PILOTO AEREO ACOBRATICO

    • Raul Marinho
      1 ano ago

      Vc tá de sacanagem, né? Fala que sim, por favor!

      • kent
        1 ano ago

        Tá com cara de ser sacanagem…

  7. Marcelo Rates Quaranta
    1 ano ago

    Raul, o que vimos no caso do voo do bêbado não foi nada mais do que um voo glissado sobre a pista, e com motor a pleno. Nada que represente perigo e que não chega nem perto do que é feito no voo do bêbado apresentado no vídeo acima, dos Estados Unidos. .
    .
    Agora, o que mais me surpreendeu foi a narrativa fatalista do “especialista”, cuja carreira é obscura, e que ganhou alguma notoriedade às vezes se apropriando de textos alheios. Ora, tenha paciência… Parece que o Fantástico escolheu a dedo alguém que concordasse em dar um tom sensacionalista à coisa. Todos sabem que eu não defendo qualquer tipo de besteira, mas especificamente em relação ao voo do bêbado, o camarada perdeu uma grande oportunidade de colocar um esparadrapo na boca.
    .
    Conheço o Aeroclube de Itápolis (pois fiz curso de piloto agrícola lá), e posso assegurar que o Edmir e o Josué jamais consentiriam algo que fosse reprovável em relação à segurança de voo.

  8. Marcelo Martinho
    1 ano ago

    Quem vê pensa que o Sr. Decio Correia a vida inteira dele só voou padrão. Bando de hipocritas,,, Porque não fizeram uma reportagem com dados e números de acidentes ou incidentes ocorridos,, matéria que nos levou do nada pra lugar nenhum.

  9. nilton lucilio
    1 ano ago

    bela materia falou tudo !!!!

  10. André.
    1 ano ago

    Dois rasantes ali mostrados (do helicóptero e do cessna que quase atinge o barranco) eu achei uma temeridade de fato.
    O “vôo do bêbado”, a passagem baixa em formação e até a passagem sob a ponte são, em tese, coisas comuns – nada além de pilotos com domínio sobre os equipamentos que operam.

    De todas, seguramente, a mais confiável teria sido a do aeroclube – não por conta da instituição, mas pelo fato de ser ocorrido em ambiente próprio (embora não ideal) e, ainda que de forma não-oficial, executada possivelmente por instrutor, em hora programada, com apoio e coordenação externas etc.

    Mas pecou por não comunicar e executar oficialmente. Quando se fala em cultura aeronáutica é de se esperar que a aderência às regras e a padronização venham “de berço” e este, é o aeroclube. Se a ANAC vai ou não inspecionar, se vai onerar é uma outra discussão. Mas se formos sempre enveredar por este caminho alguns diriam não precisar nem de pagar o brevê (sei que sou muuuuuuuuuuuuito bom). Enfim, foi vacilo. E pode ter sido o único; mas pode haver outros – que não deram em nada e que ninguém vai ter como saber – o que pode ser ruim quando se fala de prevenção.

    Entretanto, há que se levar em conta que existe uma diferença entre ser piloto (bom ou mal) e piloto de acrobacia. Para começar, acrobacias precisam de ambiente adequado onde haja coordenação e aviso para outras aeronaves. Mas, sobretudo, precisam de planejamento. Um piloto de acrobacia foi treinado para ser um cara que planeja MUITO – não apenas o que pretende realizar, mas o que fazer se esta ou aquela etapa acontecer de forma errada.

    Padronização, precisão, disciplina, planejamento, aderência a regulamentos e cultura aeronáutica vão todas pros quintos dos infernos quando, de uma hora pra outra, um sujeito resolve se mostrar em manobras de baixa altitude para possíveis periguetes de plantão.

    Finalmente, quanto ao conteúdo da matéria e sua abordagem, é querer criticar o jornal por querer vender jornal (ou “likes”). Seja qual for a matéria, o noticiário e muito mais um “fofocário” que outra coisa. Incerto, impreciso, incompleto ou, simplesmente, “resumido” – como dizem os jornalistas…

    • Gleidson
      1 ano ago

      Muito bem fundamentado o seu comentário. Ainda sou estudante não sou especialista mas sei que os termos: Padronização, precisão, disciplina, planejamento, aderência a regulamentos e cultura aeronáutica são indispensáveis à aviação contemporânea. Estão no anexo 19 da ICAO. Mesmo que a aviação fique chata.
      Mesmo percebendo o tom sensacionalista do Fantástico, as imagens falam tudo. São violações, indisciplina, propaga a cultura da violação rotineira e pior não era necessário ou essencial a nenhuma operação. O texto me pareceu uma apologia a complacência.

  11. Antonio Carlos de Carvalho Filho
    1 ano ago

    Perfeito Raul!!!! Misturaram no mesmo balaio coisas muito diferentes!!!!!
    O mais triste de tudo foi ver um “especialista” que tem teto de vidro criticando o “vôo do bêbado” como se não soubesse do que se trata ou como se fosse o mesmo que uma irresponsabilidade qualquer…

  12. Rodrigo Aldz
    1 ano ago

    O correto seria comunicar a Anac do evento, o que não foi feito segundo a reportagem e o diretor de operações da Anac.
    Na avião há regras e me causa estranheza uma instituição que tem como objetivo ensinar e instruir novos pilotos não seguirem as regras determinadas.

    • Antonio Carlos de Carvalho Filho
      1 ano ago

      O fato do erro de comunicação com a ANAC não torna o vôo realizado uma “irresponsabilidade”!!! Não se pode comparar uma “exibição aérea” feita por gente qualificada e treinada com razantes sobre pessoas ou uma outra estripulia qualquer… São coisas muito distintas!

      • Rodrigo Aldz
        1 ano ago

        Exibição aérea irregular, sem comunicar os órgãos competentes, colocando em risco a operação de outras aeronaves e pessoas que assistiam (não sei se você reparou mas os espectadores estavam em uma área próxima das manobras)
        O aeródromo de Itápolis não é exclusivo do aeroclube e exibições desse tipo devem ser avisadas e comunicadas via notam para que outros aviadores conheçam e tenham ciência durante o seu planejamento de voo

  13. Fernando Pinheiro
    1 ano ago

    Concordo contigo Raul. E mais. Os leigos quando se atrevem a falar de aviação, não sabemos o que esperar e ainda coisa boa não virá. E pior… Eles tem contribuindo para deixar a aviação ainda mais chata, leia-se menos humanos e mais automatismo. No dia que não tivermos mais pilotos no comando das aeronaves, talvez eles saiam em defesa da classe.

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