Aviação em coma – ou melhor: à beira de um colapso

Aviação em coma – ou melhor: à beira de um colapso

By: Author Raul MarinhoPosted on
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No último dia 02/07/2016, foi publicada no jornal O Globo uma entrevista com a presidente da Latam no Brasil, Cláudia Sender, em que a executiva afirma que “a indústria da aviação está em estágio de coma”. Tomada emprestada da Medicina, “estar em coma” é uma expressão muito forte e que ganha contornos ainda mais graves por ter sido dita por quem é a Sra. Sender: a principal dirigente de uma das maiores companhias aéreas do país.

Dois dias depois, em 04/07, a APPA-Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves publicou um editorial em seu Portal dando uma definição mais apropriada à situação “comatosa” da aviação brasileira, cujo teor encontra-se abaixo reproduzido. Ao invés da analogia com a Medicina, neste texto se fala que “a aviação civil brasileira está caminhando a passos largos para o colapso”.

Sendo o colapso a morte, “caminhar para o colapso” seria equivalente a “entrar em coma”; ou seja: ao final, em ambos os casos está-se a falar da péssima situação da aviação brasileira. Mas no texto da APPA está mais explícito que a atuação do governo e dos órgãos de Estado relacionados ao setor nos últimos anos é o que levou a aviação a esta situação. Vale a pena a leitura:

Aviação brasileira em coma: concordamos com Cláudia Sender, da LATAM. Só que falamos disso há muito mais tempo.

Há poucos dias, Cláudia Sender, presidente da LATAM para o Brasil, disse que a “indústria da aviação está em estágio de coma”.

A APPA – AOPA Brasil concorda com Claudia. Aliás, o certo seria dizer que finalmente alguém das companhias aéreas fala, publicamente, o que nós temos dito há alguns anos.

O que nos diferencia de Claudia Sender, é que como pilotos e proprietários de aeronaves, membros de uma associação majoritariamente formada por empresários, profissionais liberais e pilotos (ou seja, gente que não depende da concessão do Estado para voar), pudemos sempre dizer com todas as letras o que pensamos. Sem temer represálias, apesar de as termos enfrentado.

A APPA-AOPA Brasil, mesmo atuando institucionalmente junto com todos os órgãos gestores da aviação civil brasileira, nunca se omitiu à verdade, por mais dura e direta que fosse.

Agora, o discurso ganha uma aliada de peso. Um ente concessionário finalmente diz o que temos dito há muitos anos: a aviação civil brasileira está caminhando a passos largos para o colapso. Enquanto outras companhias aéreas e taxis aéreos continuam quietos, preferindo reproduzir a velha fórmula das conversas de gabinete e discursos a portas fechadas em busca de acordos pontuais que tentem resolver, o que para muitos, já se tornou insolúvel. A APPA-AOPA Brasil reitera abaixo alguns fatores que têm contribuído para a falência do setor aéreo brasileiro, como um todo:

  1. Nunca fomos, como país, pródigos em usufruir de uma política estratégica para um setor como a aviação. Alias, planejar e executar não é um dos talentos brasileiros. Somos craques do remendo, bons de conversa e pernas de pau na execução. Como a aviação é um setor que não perdoa o amadorismo e a gambiarra, até Claudia Senders chegou num ponto em que se dispõe a falar em público aquilo que até poucos meses atrás ainda era melhor ser dito reservadamente, enquanto se tentava encontrar soluções que resolvessem problemas particulares, não setoriais. Pelo visto, a estratégia da conversa miúda não resolveu. A falta de coragem de encarar o público com a verdade, que pautou a falta de uma postura clara e combativa do segmento, contribuiu para nos trazer até aqui.
  2. Combinado com o espírito amador com que o Brasil sempre levou sua aviação, pelo menos nas últimas 3 ou 4 décadas, o setor aéreo foi vítima dos últimos 13 anos de completo amadorismo, desmando e corrupção patrocinado por todos os trágicos governos petistas. Em que pese o fato da APPA-AOPA Brasil nunca ter manifestado qualquer preferência partidária e levando em conta que a nossa Associação não advoga a favor de qualquer político, o fato é que a aviação brasileira foi atacada frontalmente pela ignorância absoluta de um governo centralizador, comprovadamente corrupto e incapaz de compreender as características de um setor tão complexo como a aviação.
  3. Quem ainda sobreviveu a esse estado de coisas, no Brasil, foram os abnegados e os extremamente profissionais. Quem reúne essas duas qualidades. Mesmo os mais profissionais desistem do setor aéreo por não ter na paixão pela aviação, transformada em abnegação, combustível para ter paciência de lidar com tanto amadorismo, desvios de conduta e incapacidade intelectual de quem deveria liderar o país.
  4. E onde residiu tanto amadorismo e desmandos, durante todo esse tempo? No topo da cadeia decisória do país. A começar pelo Gabinete da Presidência da República, passando por todas as autoridades diretamente envolvidas no total desprezo ao entendimento do setor aéreo, das suas características e necessidades. Sem rumo estratégico para o setor aéreo, com o Comando da Aeronáutica hierarquicamente subordinado a uma cadeia de comando capitaneada pela boçalidade, a Agência Nacional de Aviação Civil sequestrada por interesses de governo (descumprindo suas prerrogativas de órgão de Estado) e com invenções do tipo da SAC (Secretaria de Aviação Civil) transformada em ministério, é lógico que as coisas não acabariam bem. Como se pode observar no diagnóstico de Claudia Sender.
    • A nomeação de amadores, apaniguados políticos e gente desqualificada para a ANAC foi só o mais evidente sinal do desprezo com que os governos recentes trataram do setor. Embora não fosse necessário, porque a Lei que criou a ANAC já prevê requisitos para a nomeação dos seus diretores, fosse aplicável à Agência, a Lei aprovada há poucos dias, proibindo a indicação pelo governo de desqualificados para cargos estratégicos, muito provavelmente quase todos os atuais diretores da ANAC teriam que ser imediatamente exonerados. Caso a ANAC não possuísse, em seus quadros técnicos, gente qualificada técnica e moralmente, a situação seria ainda pior, pois não é na Diretoria que a Agência pode se inspirar para buscar gerir o presente e o futuro do setor. O mesmo vale para o DECEA, para a Infraero e para os Departamentos Aeroviários Estaduais.
  5. O Brasil literalmente se desligou do resto do planeta em termos tecnológicos. A quem restar dúvida, basta observar as manhãs de junho e julho: aeroportos como Congonhas, Galeão, Santos Dumont e Guarulhos permanecem fechados por horas, por causa de nevoeiros. A falta de investimentos em tecnologias já consagradas há décadas pelo mundo civilizado faz com que brasileiros se sujeitem a restrições que cidadãos que pagam impostos, nas mesmas proporções do que nós, não estão sujeitos, há muitos anos. As mesmas aeronaves de empresas aéreas, taxis aéreos e particulares, que no Brasil ficam impedidas de pousar ou decolar em dias de nevoeiros, operam normalmente debaixo de neve, calor escaldante e ventos fortíssimos, em todo o resto do mundo civilizado. Por que isso ocorre? Porque o Brasil foi “desplugado” do resto do planeta do ponto de vista tecnológico.
  6. As empresas aéreas estão amargando prejuízos bilionários consecutivos por causa desses desmandos e agora se sentem com coragem de vir a público falar a verdade? Pois a frota brasileira da Aviação Geral, uma das maiores do mundo, está praticamente paralisada. E esse movimento vêm ocorrendo há anos, de forma brutal, sem que nada fosse feito para reverter a situação. Sistemas de tráfego aéreo desatualizados, equipamentos aeroportuários inoperantes ou inexistentes, taxas absurdas, desmandos na gestão da infraestrutura, desligamento ou precariedade de radares meteorológicos são só algumas das consequências concretas da falta generalizada de estratégia e políticas estruturadas para um setor tão importante e complexo como o da aviação.

O que, então, podemos fazer, além de reclamar?

O que temos feito há anos: buscando encontrar e trabalhar com as pessoas dos órgãos gestores que, apesar da falta de recursos intelectuais, técnicos e financeiros do topo decisório do segmento no Brasil, ainda fazem com que as coisas não tenham parado de uma vez. Ao mesmo tempo, brigando com todas as forças que temos para fazer a sociedade se sensibilizar sobre o fato que um segmento como o da aviação não pode continuar sendo negligenciado pelo governo e tocado por amadores, indicados políticos e gente mal intencionada. Esse é um ramo que só aceita profissionais.

Se algo não for feito rapidamente pelo governo interino para, pelo menos, recolocar a aviação brasileira no rumo, precisaremos de pessoas como Cláudia Sender se reunindo com os dirigentes de outras empresas aéreas (que ainda estão calados), assim como os dirigentes dos grandes taxis aéreos, os comandantes das polícias militares estaduais, os militares da Força Aérea Brasileira e os técnicos respeitáveis da ANAC, para aplicar uma enorme pressão em todo o sistema, para que algo se mova. Não esperem o colapso total para se unir ou tomar providências e se pronunciar quando pouco ou nada mais puder ser feito, ou ainda, sendo mais drástico (Deus nos livre), quando os desmandos e o amadorismo vierem à produzir mais cadáveres, provocando acidentes aéreos que poderiam ter sido evitados, se o setor fosse comandado por profissionais.

7 comments

  1. Fred Mesquita
    1 ano ago

    No início de minha vida na aviação, me ensinaram de que o sucesso da aviação no Brasil está ligado diretamente proporcional ao da economia, sendo que se a economia vai mau, a aviação é a primeira a cair. Se a economia se recupera, a aviação é a última a se estabilizar.

  2. Mauro Eduardo
    1 ano ago

    A iniciativa privada pode importar QAV e GAV, desde 1998 o monopólio estatal caiu, e ninguém importa. Poderiam construir refinarias e ninguém fez. A iniciativa privada pode construir grandes aeroportos, e nenhum foi construído por eles. A iniciativa privada poderia baixar as tarifas e preços de lanches em aeroportos privatizados (com o pagamento gordas propinas a vários lideres do atual governo interino) e ao invés disso aumentaram as tarifas.
    O Brasil poderia ter uma grande empresa de fabricação de aviões criada por empresários e nunca teve. A Embraer era publica e depois foi vendida a preço de banana, com muitos ficando ricos nesta negociação.
    O empresariado brasileiro é corrupto e sonegador, mama nas tetas do governo pegando empréstimos subsidiados, que muitas vezes não pagam; compram seus jatinhos, aviões , lanchas, as custas de falcatruas, sonegações e roubalheira e depois tem a cara de pau de falar que só político(apenas do PT) rouba. Parem de chorar e sejam honestos; gente honesta e trabalhadora e disto que o Brasil precisa. Se o Brasil acabasse com a sonegação dos grandes grupos empresariais, vários da mídia; nós que trabalhamos honestamente e temos(todo santo mês) o imposto de renda descontado no contracheque, teríamos um país muito melhor.
    Vejam o que disse o presidente da AZUl, sobre a nova ideia do atual governo de abrir 100% do capital das empresas aéreas ao capital estrangeiro(mais uma ideia que vai render milhões a alguns honestos do atual governo e afundar ainda mais nossas empresas) :
    Folha – A proposta de liberar participação de 100% nas companhias nacionais às estrangeiras não é consenso no setor. A Latam, por exemplo, apoia. Qual é a sua posição?
    Antonoaldo Neves – Se olharmos as práticas globais, não há referência de 100%. As pessoas não estudam para falar do assunto. Qual é o objetivo de adotar uma abertura diferente da que temos hoje como política pública para o país?
    E por que não adotar?
    Argumentar que falta capital estrangeiro no Brasil para aéreas é uma falácia. A Azul captou nos últimos 12 meses US$ 550 milhões de capital estrangeiro. Captamos US$ 400 milhões em financiamento de aeronaves com bancos estrangeiros com dívida no exterior, o que também é capital. Há abundância de capital estrangeiro. O que está se discutindo é controle.
    Defensores dizem que a liberação do 100% impulsionaria a entrada empresas de baixo custo, as “low cost”.
    A tarifa média no país é R$ 300, cerca de US$ 80. A tarifa média da Ryanair, a maior empresa global de “low cost” é US$ 70. Já temos tarifa de “low cost” no Brasil, embora ainda não seja o limite que o mercado pode chegar.
    Havendo reciprocidade, ou seja, desde que uma brasileira também possa adquirir 100% de uma aérea no outro país, seria aceitável?
    A relação entre países na aviação passa por acordos bilaterais de frequências. Se liberássemos 100% do capital estrangeiro, estaríamos autorizando uma empresa como a Lufthansa, ou qualquer outra, a vir ao Brasil, abrir uma empresa de capital estrangeiro e ter direito às minhas frequências. E eu, como empresa brasileira, não tenho direito às frequências dela na Alemanha. Pensando em política pública, liberar 100% sem negociação bilateral é o fim da picada. Vamos discutir céus abertos com Europa, Argentina. Vamos liberar os vistos para os EUA. Nós topamos céus abertos se liberar os vistos. Se eu tivesse condição de competir de igual para igual com estrangeiras, não teria problema. Deixa eu abrir empresa na Alemanha? Por que vamos ceder sem o país tirar proveito? É cortina de fumaça. Não vou especular sobre o real objetivo, mas não entendemos como a política pública bem pensada pode levar o país a mudar isso.

  3. Apesar de enunciar o óbvio, é uma excelente coletânea de tudo o que muitos de nós já esbravejamos aqui, repetidas vezes. Não admira que hoje o maior sonho dos mais novos – e mesmo de muitos que têm, diante de si, menos tempo de carreira do que à retaguarda – seja emigrar e fazer sua Aviação no exterior. A Era da Ingenuidade acabou faz tempo.

  4. Milton
    1 ano ago

    Lembro que nos anos 70 havia o lema “o último que sair do Brasil apague a luz do aeroporto”. Estamos voltando àqueles tempos. By the way, meu vizinho de porta e a esposa estão de mudança para Los Angeles, sem a menor intenção de voltar! Daqui pra frente é só ladeira abaixo, em alguns anos vamos estar atrás do México como hoje estamos atrás da Alemanha.

  5. Hubner
    1 ano ago

    Infelizmente nada de muito bom acontecerá.

    Afinal, capital estrangeiro continua vetado e dinheiro público será injetado, favorecendo, claro, a gestão temerária, má aplicação de recursos, falta de contrapartidas satisfatórias, ao clássico exemplo da Fundação Rubem Berta, que, mesmo falida, pegava dinheiro público e distribuia “dividendos” para o conselho/acionistas e mantinha luxos incompativeis com os recursos disponiveis.

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