Depois do “coma”, o “fim da picada”

Depois do “coma”, o “fim da picada”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Depois da presidente da Latam no Brasil, Cláudia Sender, dizer que a aviação brasileira “está em coma”, agora é a vez do presidente da Azul, Antonoaldo Neves, dizer que a abertura ao capital externo para as companhias aéreas é “o fim da picada”, em uma entrevista para a Folha de São Paulo publicada em 09/07/2016. Tratam-se, é claro, de opiniões comprometidas com os interesses das companhias que eles dirigem, mas ajudam a entender alguns aspectos da atual aviação brasileira – mesmo quando discorda-se delas. A entrevista do presidente da Azul, em particular, é muito rica e discute diversos pontos muito interessantes: vale a pena ser lida na íntegra (a explicação sobre “investimentos em ativos móveis” é particularmente interessante). Mas, aqui, gostaria de comentar apenas o aspecto que temos tratado nas últimas semanas, sobre a proposta de permitir o aumento para até 100% na participação do capital estrangeiro nas companhias de aviação brasileiras.

O que o Sr. Antonoaldo classifica como “o fim da picada” não é a abertura ao capital externo em si, mas sim fazer isso “de graça”, sem reciprocidade. Segundo o executivo, ao invés do “liberar geral” que o governo quer, o ideal seria negociar acordos bilaterais com os países interessados em investir na aviação brasileira caso a caso. E, para cada país, adotar uma regra diferente – por exemplo: se os americanos quiserem ter “céus abertos” com o Brasil, tudo bem desde que eles liberem os vistos para os brasileiros entrarem nos EUA; se os alemães quiserem investir numa companhia brasileira, ok desde que os brasileiros possam fazer o mesmo na Alemanha. E assim por diante.

Em tese, a ideia é correta e parece ser muito justa. As dúvidas são: 1)Temos condições para discutir corretamente um arranjo tão complexo em um ambiente tão conturbado como é a política brasileira atual?; e 2)Supondo que tenhamos tal competência, teríamos tempo para concluir tal discussão antes que a aviação brasileira sucumba de uma vez? É verdade que “abrir com reciprocidade” é melhor que “liberar geral”, mas o grande risco é não se fazer nada e deixar a aviação no “estado de coma” em que se encontra – ou, pior, “evoluir para óbito”, para manter o jargão médico.

Às vezes, a melhor maneira de se combater uma proposta é criar tantos empecilhos para que ela seja implementada, que ela não seja viável na prática. Repetindo o que disse o próprio Sr. Antonoaldo em sua entrevista, “não vou ficar fazendo suposições” – mas que a abertura das companhias aéreas ao capital estrangeiro interessa muito mais à sua maior concorrente, isso é inegável…

6 comments

  1. Mauro Eduardo
    11 meses ago

    Não é à toa que o Antonoaldo Neves, presidente da Azul, desconfia desse impeto do Gatinho angorá(Moreira Franco) e do Eliseu (que o ACM chamava de “Quadrilha”) de vender o espaço aéreo brasileiro a empresas internacionais de aviação.

    Muito estranho…
    Nenhum país faz isso …

    Mas, quem sabe a explicação esteja no Estadão, em comatoso estado, dessa quarta-feira (13/VII):

    O presidente da Andrade Gutierrez, essa empreiteira que se incorporou ao prontuário do Aecím de forma irremediável, Otávio Azevedo e o então ministro da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco – atual ministro das privataria desenfreada – trocaram intimas mensagens para tratar da concessão do aeroporto de Confins, em Minas.
    Para agentes federais, há suspeita de acertos prévios nas concessões.
    Andrade é uma das sócias da CCR, o grupo que venceu o leilão de concessão de Confins.
    “Vocês sao craques. Foi aonde houve competição. Vamos (sic) em frente. Abs e obrigado (sic)”, disse o gatinho.
    Bem que o Fernando Henrique dizia (segundo o ACM): esse rapaz não pode ficar perto de um cofre!

    (E o Padilha: será ele também um propineiro?)

  2. anônimo
    11 meses ago

    como já perguntei em um post anterior: qual a vantagem para o “capital externo”? Já que ninguém joga dinheiro de graça.

    • Raul Marinho
      11 meses ago

      As possíveis vantagens são inúmeras: um mercado enorme, um potencial de crescimento absurdo, uma localização estratégica na América Latina, etc. O Brasil é um país difícil, tem suas complicações, corrupção, etc., mas tente enxergar o planeta com os olhos de um investidor em Wall Street ou na City de Londres, e vc vai ver que não tem opção fácil de investimento no mundo.

      • anônimo
        11 meses ago

        Vendo a crise, de dentro do país, esqueci de ter esse ponto de vista.

        O que mata é essa buRRocracia (especialmente a ANAC), que impede que empresas nacionais consigam progredir.

        Mas ainda estou temeroso com esse negócio de liberar 100%

  3. Sergio
    11 meses ago

    Muito bom o seu artigo, mais uma vez. Se o objetivo em abrir 100% do capital é estratégico, ótimo. Mas se procura-se uma solução para a situação atual, seria desastroso. A curto prazo o Brasil está quebrado, e consequentemente todos estamos quebrados.
    Minha questão é simples. É interessante para o Brasil ter sua aviação comercial controlada por grupos de capital estrangeiro?

  4. Marcos Véio D' Guerra
    11 meses ago

    Mantendo-se no campo da medicina. Acho que estão criando a doença para depois, criarem uma vacina. Alguém aí lembra da VARIG, VASP da vida, que foram “socorridas” com o dinheiro dos idiótas (o povo)?

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