A crise das companhias de aviação do Brasil não é de hoje

A crise das companhias de aviação do Brasil não é de hoje

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na edição do trimestre julho-setembro do Journal of Transport Literature há um interessante artigo sobre a saúde financeira das companhias de aviação do Brasil: “Uma análise da situação financeira da indústria brasileira de aviação civil“. Trata-se de um ‘paper’ acadêmico produzido por pesquisadores da UnB-Universidade de Brasília, e submetido à publicação em julho/2015 com dados de 2011-2013 e estimativas para 2014. Não é, portanto, um artigo com dados recentes, mas justamente por isso eu o achei revelador.

Desde o final de 2014, nos acostumamos com notícias econômicas ruins em todos os setores da economia, inclusive na aviação. Estamos enfrentando uma depressão econômica, com recessão de -3,8% em 2015 e expectativas similares para 2016, talvez um pouco menos ruim – mas ainda em um contexto fortemente recessivo -, sendo que 2014 teve crescimento próximo de zero (+0,1% para ser exato). Mas vejamos o crescimento do PIB brasileiro para o período analisado no ‘paper’ acima citado: +3,9% em 2011, +1,8% em 2012, e +2,7% em 2013 – média: +2,8%. Seria de se esperar, então, que a aviação estivesse indo bem neste período, não é mesmo? Vejamos, porém, o que os autores do artigo dizem sobre o triênio:

O setor [de linha aérea do Brasil] apresentou prejuízos seguidos em 2011, 2012 e 2013. O lucro líquido médio setorial neste triênio foi de R$ 2,48 bilhões negativos e o grau de endividamento médio foi mais de 40% maior do que o patrimônio líquido médio do setor (ANAC, 2014). Este estado de coisas não pode perdurar sob pena do setor ir à falência, com severos impactos na economia nacional.

Que concluem:

(…)Este estado de coisas não pode perdurar, sob pena do setor ir à falência.(…)

Bem… Este estado de coisas perdurou, e o setor realmente está à beira da falência – se é que já não ultrapassou este limiar. Mas, ao contrário do que se acredita, a depressão econômica da “Era Dilma-2” não foi o fator determinante para que o setor chegasse a este estado lamentável em que se encontra. Na verdade, as companhias aéreas brasileiras já se encontravam em situação econômica muito fragilizada antes do início da crise econômica que o país mergulhou em 2014/2015 – e aí, é claro que a depressão acabou por agravar a situação. Seria como um paciente anêmico e subnutrido que adquire dengue: embora a infecção possa ser a causa de sua morte, se ele não fosse picado pelo Aedes, talvez o sujeito também morresse (ou, se ele estivesse saudável quando contraiu a dengue, possivelmente sobrevivesse).

One comment

  1. A.M.Filho
    9 meses ago

    Na minha singela opinião, houve uma empolgação muito grande com o mercado e uma leitura muito errada dos fatores macroeconômicos. Não foi exclusividade da aviação, basta lembrarmos da capa da The Economist com o Cristo decolando. Vivemos um grande voo de galinha que ao não investir nas reformas estruturais necessárias, tornou o crescimento sustentável inviável. Ao tentar prolongar o voo de galinha com aumento em demasia do gasto público, tivemos uma explosão dos gastos públicos e a profunda recessão.
    Acredito que as companhias tiveram uma tolerância com os grandes prejuízos ao entenderem que não eram prejuízos e sim investimentos e que com tudo que poderia acontecer de bom, segundo os desenvolvimentistas, faria com que logo estariam em forte ciclo de lucros. Aconteceu tudo ao inverso: os prejuízos não vieram, o rápido crescimento da frota e malha se mostraram insustentáveis e o “vai faltar piloto” se mostrou tão falso quanto uma nota de R$3,00. Agora, resta juntar os cacos e lidar com a realidade, que não é tão colorida assim, e preparar para que as coises voltem a um rumo confiável.

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