A tragédia do TAM-402 (o Fokker-100 que caiu próximo a Congonhas em 31/10/1996) continua acontecendo todo ano no Brasil

A tragédia do TAM-402 (o Fokker-100 que caiu próximo a Congonhas em 31/10/1996) continua acontecendo todo ano no Brasil

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Hoje faz exatos 20 anos que aconteceu a tragédia com o voo TAM-402 – um Fokker-100 que caiu próximo ao aeroporto de Congonhas logo após a decolagem, matando 99 pessoas: 96 a bordo, sendo 90 passageiros e seis tripulantes; e três em terra. O Fantástico, da Rede Globo, exibiu uma excelente reportagem sobre este acidente na noite de ontem*, e uma das entrevistadas foi a querida amiga Sandra Assali, viúva de um dos passageiros daquele voo, que estará lançando seu livro “O dia que mudou minha vida” nesta noite, contando a tragédia sob seu ponto de vista. Estarei lá, e espero encontrar muitos leitores deste blog no evento!

Acidentes aéreos como o TAM-402 são tragédias singulares porque geram, ao mesmo tempo, centenas ou milhares de catástrofes individuais em diversas famílias, com filhos que perdem os pais, pais que perdem os filhos, esposas que perdem seus maridos, e assim por diante; em inúmeras empresas, universidades, órgãos públicos, associações, etc., que perdem seus diretores, professores, parceiros de negócios, colegas, etc.; e para uma infinidade de pessoas que perdem seus amigos. Em um único dia, tudo acontece simultaneamente, e é por isso que os acidentes com aviões de linha aérea causam tanta comoção.

Nos acidentes com aeronaves da aviação geral, por sua vez, poucas pessoas (em muitos casos, “somente” uma) morrem de cada vez. É um avião agrícola que se choca com a fiação ali, matando “só” o piloto hoje; um helicóptero privado com “só” três a bordo que colide com um morro amanhã; um monomotor “experimental” cujo piloto perde o controle na curva base e que mata “só” duas pessoas acolá depois de amanhã; e assim sucessivamente. Não são mortes no “atacado”, como foi o TAM-402, mas o “varejo” dos acidentes da aviação geral é igualmente trágico: cada uma destas vítimas também tem sua mãe, seu tio, seu sócio, seu orientador de mestrado, etc. No fim das contas, de um em um (ou de poucos em poucos), chegam-se a tragédias tão graves quanto às da linha aérea, só que distribuídas ao longo de um espaço de tempo maior. Isso sem contar que a perda nunca é de “só um”: para o pai que perde o filho, ou para a irmã que perde o irmão, ou para o amigo que perde a amiga, aquele que se foi é tudo, não faz a menor diferença ter morrido “somente” aquela pessoa, ou dezenas junto com ela.

Entretanto, mesmo sabendo que contar mortos não faz nenhum sentido para os familiares e amigos dos que morrem, o fato é que o total de perdas anuais de vidas na aviação geral tem sido muito alto: é como se todo ano ocorresse um TAM-402 distribuído ao longo dos meses. Mas como desde o NOAR-4896 – último acidente com aeronave de linha aérea ocorrido no Brasil, em 2011, quando 16 pessoas morreram – não há tragédias aeronáuticas “no atacado” em nosso país, parece que está tudo bem na segurança da aviação do Brasil. Infelizmente, não está não. Voltaremos a este assunto em breve aqui no blog, mas antes disso vamos ao lançamento do livro da Sandra!

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*Atualização: O SPTV de hoje veiculou uma outra matéria sobre este mesmo assunto, ainda melhor! Quando o departamento de jornalismo da Rede Globo resolve fazer um trabalho bem feito, é realmente insuperável!

2 comments

  1. Sandra Assali
    11 meses ago

    Raul e Marcos.
    Bom dia… muito obrigada pela presença e pelo apoio na divulgação do lançamento do meu livro.
    Vocês são muito especiais… agradeço de coração.
    A Segurança de Voo já está incorporada a ABRAPAVAA que, para além de uma Associação de Assistência à Familiares de Vitimas de Acidentes Aéreos, se dedica à busca constante pela melhora e aprimoramento da segurança aérea, para que possamos evitar um novo sofrimento e dor pela perda de um ente querido e sabemos que sim, sempre muito a melhorar, treinamentos constantes, ouvir nossas tripulações, acolhê-los em suas angustias constantes, a cultura organizacional, educação e responsabilidade no transporte aéreo afinal… transportam vidas… historias… memorias… famílias… e isso… não tem preço!
    Acredito muito numa das máximas que ouço do Cenipa – “se vc acha caro investir em segurança… experimente um acidente”
    Obrigada mais uma vez.
    Sandra Assali
    autora – O Dia que Mudou Minha Vida
    Presidente da ABRAPAVAA

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