O problema do voo fretado ou do voo em aeronave particular – a operação de linha aérea é realmente “mais segura”?

O problema do voo fretado ou do voo em aeronave particular – a operação de linha aérea é realmente “mais segura”?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Depois da tragédia com o avião que levava o time da Chapecoense, a imprensa está publicando diversas matérias colocando em dúvida a segurança da aviação que não é linha aérea. Nesta, do Correio Braziliense, por exemplo, o foco é a aviação particular – incluindo aí o popular (e irregular) TACA-Táxi Aéreo Clandestino; e nesta outra, da Folha de S.Paulo, coloca-se em dúvida a segurança dos táxis aéreos legítimos. Estas operações seriam mesmo inseguras? Bem… Vejamos o exemplo do malfadado voo da LaMia, que pelo que se sabe até agora se acidentou devido à falta de combustível necessário para terminar a viagem. Como aquele voo deveria ser tratado em relação ao abastecimento mínimo de combustível nas diferentes possibilidades: aviação particular, táxi aéreo e linha aérea? Quais seriam as diferenças e quanto estas deixariam o voo mais ou menos seguro?

Vejam neste post que há três regras distintas para cálculo de autonomia: uma, mais simples, aplicável à operação privada; outra, muito parecida com a primeira, que precisa ser respeitada pelos táxis aéreos; e uma terceira, bastante complexa, para a linha aérea. Sendo prático, no caso de um voo em avião “a jato” (com motores à reação, para ser correto) operando por instrumentos, os requerimentos de autonomia seriam os seguintes:

  • Operação privada:
    • ter condições de ir da origem ao destino; MAIS
    • ter condições de ir do destino até a alternativa; MAIS
    • 45 minutos de voo.
  • Táxi aéreo:
    • a mesma autonomia da operação privada, acima; OU
    • a possibilidade de usar a regulamentação de linha aérea abaixo em voos internacionais, se o operador demonstrar que haverá níveis de segurança aceitáveis.
  • Linha aérea*:
    • ter condições de ir da origem ao destino; MAIS
    • 10% do tempo requerido neste primeiro trecho; MAIS
    • ter condições de ir do destino até a alternativa; MAIS
    • 30 minutos de voo em velocidade de espera a 1500 pés de altura sobre o aeródromo de alternativa mais distante, em condições de temperatura padrão.

*Obs.: Há, ainda, outras regras específicas de reservas de combustível para descompressão rápida, para desvio de formações de gelo, etc., que não estão sendo levadas em conta aqui por uma questão de simplicidade, mas que estão citadas no post do link acima.

Percebam que caso se cumprisse fielmente qualquer uma das regras acima – inclusive a mais “simples/liberal” da aviação privada -, o voo da LaMia teria transcorrido sem problemas quanto ao combustível (fazendo uma escala ou equipando a aeronave com tanques extras, que seja). A propósito, devido ao fato de a empresa operar com uma aeronave com elevada capacidade de passageiros, ela era certificada como linha aérea, muito embora operasse como táxi aéreo. Ou seja: o problema foi de operação e de fiscalização, não da certificação ou da regulamentação fora dos limites requeridos pela operação de linha aérea. Mesmo que aquele voo tivesse respeitado “somente” os regulamentos da aviação privada, o ‘Jumbolino‘ teria pousado em Medellín (ou teria alternado para Bogotá) sem sufoco.

Portanto, respondendo à pergunta-título deste post, a questão principal não é que a operação de linha aérea seja “mais segura” do que as demais; e sim que a operação irregular de qualquer natureza é que é insegura… Se houver uma cultura de segurança forte, com os operadores respeitando a regulamentação e as autoridades fiscalizando os voos adequadamente, toda operação aeronáutica é segura o suficiente. Não há nada de errado com a aviação que não é linha aérea, isto que é importante ficar claro.

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Atualização: Sobre “toda operação aeronáutica ser segura o suficiente” recomendo este artigo recém-publicado no Portal Terra, que exemplifica muitíssimo bem como se comporta um operador privado que realmente entende o que é uma operação “segura o suficiente”.

5 comments

  1. dimorfi
    1 mês ago

    Na verdade, a operação “sob demanda de empresa de linha aérea” é chamada de suplementar. No Brasil e na maioria dos países signatários da ICAO, ela é conduzida sob as regras do 121 ou equivalente – provável motivo pelo qual a Lamia era certificada como operadora de linha aérea.

    • Raul Marinho
      1 mês ago

      Sim, perfeito.

  2. Perfeitamente, Raul. É o mesmo que ocorre com os aviões “de veneno”: nunca foi problema de da aviação em si, e sempre da fiscalização.

  3. Savio Zamboni
    2 meses ago

    Esse Aviao foi feito para Voar etapas curtas,o famoso pinga-pinga,e outra coisa,a APU no Avro 85,que e o mesmo que BAE 146-200,tem que estar funcionando quando na subida ate FL100,e o mesmmo na descida,quando se tem uma emergencia eletrica,a APU,tambem tem que estar ligada.Ess motor e um lyncome de helicoptero,com um fan,assim sendo nunca poderia ter feito esse tipo de Voo.

    • João Carlos Morais
      1 mês ago

      Independente dos procedimentos do APU, essa aeronave não poderia fazer esse vôo porque a sua autonomia não permitia, ponto final.

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