Aviação 2017 – Previsões do ‘Pai Raul’

Aviação 2017 – Previsões do ‘Pai Raul’

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Mizinfio quer saber se vai ter emprego de piloto prá voismecê ano que vem? Ou quais regras a sinhá ANAC vai mudar? O que mais deverá acontecer com a aviação do Brasil em 2017? Pai Raul jogou os búzios e o resultado está aqui!

É claro que isso é uma brincadeira! Na verdade, o que eu quero dizer é que “os búzios”, assim como “os astros” ou “as cartas”, são métodos de previsão do futuro tão confiáveis quanto os utilizados pelos economistas “sérios”* – e que, aqui, não se fará este tipo de exercício futurológico. O que faremos será meramente uma análise dos fatos para inferir o que deverá acontecer em 2017, que foi o que fizemos no ano passado em “Aviação em 2016: Previsões do ‘Pai Raul’”. Comparem aquele post-profecia com o que realmente ocorreu no ano que passou, e confiram: aconteceu quase tudo.

Mudanças regulatórias

As únicas coisas que realmente não se confirmaram nas previsões de 2015 foram: 1)a publicação do RBAC-91, com as novas regras operacionais para a aviação geral (que irão trazer, dentre outras novidades, a regulamentação do compartilhamento de aeronaves), e 2)as normas para os checadores autônomos. Mas, em ambos os casos, redobro a aposta (mas não a meta!), e arrisco-me a dizer que teremos novidades sobre estes dois assuntos ainda no primeiro trimestre de 2017.

Também acho que teremos novidades muito em breve sobre o RBAC-141, que deverá trazer o novo escopo da formação básica de pilotos no Brasil, com os novos manuais de curso de Piloto Privado, Piloto Comercial, Instrutor de Voo e Piloto Agrícola (o novo manual do curso de IFR já foi publicado em 2016). Porém, a grande novidade esperada em 2015, que era a emenda n°06 ao RBAC-61, sobre licenças e habilitações de pilotos, saiu conforme previsto: foi publicado em março de 2016 (e, em julho, saiu a IS 00-004C, que regulamentou a atuação dos pilotos segundo-em-comando de aeronaves ‘single pilot’).

Ainda no âmbito da ANAC, acredito que deveremos ter boas surpresas em 2017 quanto à questão da LOA/PBN (procedimentos baseados em navegação por satélite na aviação geral) e ao NORSEE (uso de equipamentos não-certificados em aeronaves certificadas). Também deve entrar no ar o novo sistema informatizado da Agência para tornar menos complexo seu uso pelos “regulados” (isto é: pelos pilotos).

Empregabilidade

2016 foi um ano muito complicado para o mercado de trabalho de pilotos, com “contratação negativa” na linha aérea e dificuldades em todos os segmentos da aviação geral – talvez um pouco menos na aviação agrícola, mas ainda assim, longe de estar bom. Em 2017, por outro lado, há perspectivas um pouco menos sombrias para o mercado de trabalho pelos seguintes motivos:

Cenário menos negativo na linha aérea – No início de 2016 havia sérios rumores sobre a possibilidade de ocorrer demissões em massa em diversas linhas aéreas, e até mesmo sobre a inviabilidade econômica da Gol. No decorrer do ano, realmente ocorreram demissões de tripulantes, mas não o “tsunami” que se temia; e a Gol teve forte alta nas bolsas de valores, mostrando que o mercado voltou a creditar na continuidade das operações da empresa. Para 2017 não há tais rumores, e pelo menos uma companhia (a Azul) já anunciou que deve contratar tripulantes – o que “não é nada, não é nada, já é alguma coisa”.

Diminuição no ritmo de formação de novos pilotos comerciais – Seja pelo fim da era do “apagão de pilotos”, seja pela falta de recursos que as pessoas têm para custear a caríssima formação aeronáutica, os aeroclubes e escolas de aviação estão operando com altas taxas de ociosidade desde 2015. Para o mercado de trabalho de pilotos, se isto é ruim por um lado porque diminui a necessidade de contratação de instrutores, por outro ele gera um reequilíbrio na relação oferta de demanda de mão-de-obra na aviação – quanto menos pilotos se formando, melhor a relação entre novos pilotos e novas vagas de trabalho (pelo ponto de vista dos candidatos a emprego, claro).

Menor pressão de custos na aviação – O dólar, como se sabe, responde por boa parte dos custos da aviação – peças e manutenção, licenças de softwares, etc. Combustíveis, por outro lado, têm, além do dólar, os preços internacionais do petróleo. E, em ambos os casos, não se esperam aumentos significativos para 2017. Também não há muito espaço para aumentos de salários de tripulantes (infelizmente, neste caso) e as tarifas e impostos tampouco devem subir exageradamente.

Apesar disto, é preciso levar-se em conta o efeito da subutilização da mão-de-obra, que deve impedir uma expressiva retomada na contratação de profissionais desempregados ou que nunca conseguiram um emprego no ramo. Já existe até um índice de mão-de-obra subutilizada calculado pelo IBGE, mas sua aplicação ao mercado de trabalho de pilotos requer algumas adaptações, já que estes não cumprem uma jornada de trabalho igual à dos trabalhadores “terráqueos”.

Para entender como funciona este efeito na aviação, vamos imaginar um exemplo de um operador aéreo privado que, antes da crise, possuía três aeronaves com cinco pilotos contratados, todos voando uma média de 50h/mês. Com a situação apertando, ele vendeu uma aeronave e demitiu dois pilotos, até que estivesse com somente uma delas operando (a outra entrou numa “revisão eterna”) e dois pilotos contratados (um terceiro como freelancer para cobrir férias, etc.), cada um voando cerca de 25h/mês (o freelancer voando cerca de 10h/mês). Quando a economia reaquecer, este operador deverá, antes de contratar novos pilotos, aumentar a utilização dos seus dois tripulantes fixos que estão voando pouco, demandar mais horas do freelancer – e, num segundo momento, trazer este para os quadros efetivos da operação (o que deve coincidir com o retorno da segunda aeronave para as operações normais). Somente num terceiro momento, quando estes três pilotos estiverem próximos do limite anterior, de 50h/mês, é que o operador poderá começar a pensar em contratar novos profissionais e/ou repor a aeronave vendida. Mas, durante um bom tempo, a mão-de-obra subutilizada que ele já possuía é que deverá dar conta do aumento da demanda, ocorrendo um ‘delay’ entre a retomada da economia e o aquecimento do mercado de trabalho de pilotos – o efeito da subutilização da mão-de-obra na aviação.

Concluindo

Se havia alguma esperança de que 2017 fosse o ano da volta do crescimento, o acirramento da crise política revelado no início de dezembro de 2016 está mostrando que o ano que vem também não será nada fácil. Já em relação aos aspectos regulatórios, estou mais otimista. Mas, como disse inicialmente, isto não é uma previsão, e sim uma análise dos fatos que estão aí – o que vai acontecer realmente, ninguém sabe. Só o que podemos fazer é trabalhar para construir um futuro melhor, então mãos à obra!

E que 2017 nos sorria!!!

 – x –

*Obs.: Como exemplo de previsões econômicas “sérias”, vejam esta matéria do Estadão de três anos atrás, dizendo que o “Brasil será 3º mercado de aviação até 2017 – Dados de associação do setor, a Iata, mostram que demanda por viagens no País crescerá acima da média global“. De acordo com o que dizia a IATA na época, o Brasil deverá transportar 122,4milhões de passageiros em 2017 no transporte doméstico. Já os últimos dados disponibilizados pela ANAC, relativos a outubro de 2016, apontam para 7,3milhões de passageiros, ou cerca de 87,6milhões em dados anualizados, quase 30% menos.

12 comments

  1. Marcello Vieira
    2 semanas ago

    Pelo o que to vendo, acho que melhoras mesmo só em 2018

  2. Gutemberg
    1 mês ago

    Olá Raul. Diante de algumas mudanças na legislação,gostaria de saber o que é necessário para eu rechecar o meu HMNT (antigo tipo do AS 350 B2- Esquilo), se é possível fazê-lo no R66 e o que é necessário.

    Obrigado
    Gutemberg

    • Raul Marinho
      1 mês ago

      Se vc tinha os TIPOs do Esquilo e do R66, ou foi endossado para estes modelos, sem problemas.
      É necessário somente o voo de cheque em si, sem necessidade de grounds, bancas teóricas, etc.

  3. Jonatas
    2 meses ago

    Boa noite Raul!
    Eu realmente estou desorientado e gostaria de uma resposta sincera do senhor.

    Estou com 33 anos e nunca tive oportunidade de ingressar na aviação.
    Estava observando alguns sites e lendo alguns posts de pilotos e especialistas no assunto, tal como o senhor, e realmente me desanimou muito.

    Eu estou muito interessado em fazer o curso de PP e fazer todos os outros para tentar virar Piloto de cia aérea. Porém se eu começar agora tenho a previsão de terminar em 2 anos tudo.

    Minha questão é: Em um cenário realista, as chances que eu tenho de conseguir um trabalho em uma cia aérea são remotas? Visto que um colega está desempregado a alguns anos em um post aqui também.

    Não sei se isso influenciaria, mas tenho Inglês Fluente(pois morei fora) e Alemão Avançado, isso me traria algum grande diferencial na contratação apesar da idade que estarei quando concluir todos os cursos?

    E minha última questão para ver se é viável ainda sonhar com a carreira de piloto é: Com esses idiomas e os cursos concluídos, consigo alguma posição na Europa? Lá eles tem demanda por pilotos se caso no Brasil estiver muito complicado?

    Agradeço muito a atenção e parabéns pelo seu site!

    • Raul Marinho
      2 meses ago

      Minha questão é: Em um cenário realista, as chances que eu tenho de conseguir um trabalho em uma cia aérea são remotas? Visto que um colega está desempregado a alguns anos em um post aqui também.
      =>Tudo depende da relação oferta/demanda, meu caro… Acredito que daqui a dois anos estejamos vivendo um momento bem melhor que o atual.

      Não sei se isso influenciaria, mas tenho Inglês Fluente(pois morei fora) e Alemão Avançado, isso me traria algum grande diferencial na contratação apesar da idade que estarei quando concluir todos os cursos?
      =>influencia, sim, e muito! Mas se o mercado estiver retraído, como agora, nem falando 10 idiomas fluentemente adianta…

      E minha última questão para ver se é viável ainda sonhar com a carreira de piloto é: Com esses idiomas e os cursos concluídos, consigo alguma posição na Europa? Lá eles tem demanda por pilotos se caso no Brasil estiver muito complicado?
      =>Vc tem como obter cidadania européia? Se sim, pode ser uma alternativa, sim.

  4. Sousa
    4 meses ago

    Até quando deve se alimentar esperanças na aviação? Pelo que vejo, o quesito “sorte” eh prioritário! Conheço pessoas com ótimo currículo, “penduricalhos” de todos os tipos, inglês avançado/fluente, mas qdo chega a oportunidade, nada disso abrilhanta aos olhos de um recrutador. Por outro lado, existem aqueles os quais o “emprego” vem de paraquedas! Eh desanimador. E ainda tem um agravante: vc se forma piloto, investe alto (bem alto) nisso, e caso não seja o sortudo da vez a se empregar na área, vai entrar em que setor no mercado de trabalho? Velho, cansado, estressado e frustrado… Profissão linda, mas bem difícil! Eh preciso muuuita cautela na escolha…

  5. Hugo Lima
    5 meses ago

    Boa noite Raul;

    A noticia que se mais fala é da contratação que a AZUL irá fazer, mas a AVIANCA no site dela abriu vaga também e estão dizendo que podem chamar agora em janeiro ou março de 2017, você está sabendo de algo? Eu vi também que a LATAM teve um lucro esse ano e que no próximo ano vai ter melhoras, essa “melhora” resulta em contratação de pilotos? Já a GOL não tem nenhum sinal de quando pode ter alguma contratação?

    • Raul Marinho
      5 meses ago

      A Avianca realmente contratou pilotos em 2016 e deve continuar em 2017, mas em baixo volume. Já Latam e Gol provavelmente não irão contratar, pelo menos no 1o semestre.

  6. Milton
    5 meses ago

    Eu estava vendo uma amostra da situação nos classificados de venda de helicópteros. Nesta semana vi um R44 Raven II ano 2011 com 850 horas totais por R$1,1 milhão. Ainda que seja muito dinheiro para um cidadão comum, é uma pechincha, muito menos do que um outro R44 em idade/horagem similar estaria há uns 2 ou 3 anos atrás.

    Também vi alguns R22 na faixa de 350~400 mil, já estavam com horagem alta, mas ainda assim, há uns 2 anos os valores deles estariam mais para uns 500~550 mil.

    Quem tá com máquina na mão tá querendo fazer dinheiro, e dando grandes descontos. Não dá pra ficar sustentando máquina que não sai do chão.

  7. Igor
    5 meses ago

    Estou todos os dias por aqui só esperando este post.
    Espero que a tendência “negativo/2016”, “menos negativo 2017”, se transforme em “positivo mas nem tanto/2018″…
    Quem não gostou muito da realidade dos fatos e os considera pessimista, aproveite o lado bom e estude mais, já que teremos tempo pra isso.

  8. Batistaca
    5 meses ago

    Afe Maria Raul, não aguento mais ficar no chão, tô desempregado há 3 anos rsrs e olha que eu tenho as duas carteiras PCA completo e PCH ( pch completa com Ifr o que é exigido pelo offshore) e mesmo assim NADA. Mas o negócio é não desistir tô investindo em mim, fazendo cursos, acompanhando seminários, congressos e investindo no inglês. Enquanto isso vou ganhando a vida no UBEr. Que venha 2017

    • Raul Marinho
      5 meses ago

      Faço votos que 2017 lhe traga boas novas!
      E lembre-se que mesmo com a economia patinando, alguém, em algum lugar, acaba se dando bem…

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