Sobre os copilotos da LaMia e a complacência

Sobre os copilotos da LaMia e a complacência

By: Author Raul MarinhoPosted on
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complacencia

De tudo o que se sabe sobre o desastre com o avião da LaMia que vitimou 71 pessoas na Colômbia em novembro último, a questão do combustível insuficiente resta incontroversa. Na verdade, há informações de que se voava sistematicamente no limite da autonomia naquela empresa: há pelo menos oito relatos de etapas de voo com duração equivalente à capacidade de combustível disponível na aeronave. O fato de o comandante, que também era sócio da companhia, ser o principal responsável pela conduta imprudente nestes voos tem sido amplamente debatida na imprensa. Mas, até agora, não vi nada publicado sobre o papel dos copilotos, e acho que vale a pena tocar neste assunto.

Sim, é claro que o responsável legal e técnico pelo voo é sempre o comandante, não há dúvida quanto a isto. Mas os copilotos, tanto do voo que acabou em tragédia, quanto dos oito anteriores que igualmente estavam irregulares, também sabiam que a aeronave voava com combustível abaixo do mínimo regulamentar. “Ah, mas o que o copila poderia fazer? Vai discutir com o comandante que, além de tudo, é seu patrão?”. Pois é, não é o objetivo aqui criticar a atitude de ninguém (especialmente de quem não pode se defender), mas discutir a complacência de maneira mais ampla.

A questão é que quem atua como segundo em comando de uma aeronave que opera no limite da autonomia sabe que está correndo risco de vida – seja pelos conhecimentos técnicos que possui, seja pelo fato de trabalhar sentado em frente ao painel da aeronave, com acesso a todas as informações do voo. Não há como ludibriar o copiloto, e se aquela não era a primeira vez que ele voava com aquele comandante, ele deveria saber que a irregularidade era a praxe. Mesmo que fosse a primeira experiência como copiloto na empresa, seria muito difícil que a decolagem ocorresse sem que o copila não soubesse que o voo ocorreria sem nenhuma margem de segurança quanto ao combustível. Então… Por que o copiloto decolou mesmo assim? Porque precisava muito do emprego, do salário ou das horas de voo? Ora, mas para que serve tudo isso quando se está morto? Em termos puramente racionais, não fazia sentido ser complacente num caso como aquele.

Mas vejam os significados #1, #2 e #4 da palavra “complacência” no quadro do início deste post (fonte: Dicionário Michaelis/UOL): são todos positivos, virtuosos. Mesmo a definição #3, embora pejorativa, também tem a ver com o desejo de comprazer, de agradar, de agir com suavidade/brandura. Ou seja: o comportamento complacente está relacionado a afeto, ao não-confronto, à concórdia, a tudo o que se espera de uma pessoa agradável, enfim. E aí, começa-se a entender melhor porque, mesmo sabendo que se tratava de um voo de risco, os copilotos não impediram que aquele voo acontecesse – ou, no mínimo, que eles próprios desembarcassem. Eles provavelmente eram, simplesmente, pessoas boas, “da paz”, que não estavam ali para criar inimizades ou conflitos.

Eu me lembro de uma situação em que fui convidado para ser copila freelance de um voo em um Seneca. Chegando lá, vi o embarque acontecendo: 4 passageiros (mais eu e o comandante), bagagem, ‘full tank’… “Hmmm, deixa eu fazer as contas”. Nem precisava, era óbvio que estava fora do envelope. Mas… E para chegar para o comandante e falar que eu não iria mais, ali, em cima da hora – e porque ele estava querendo decolar fora do requerido pelo manual, ainda por cima? E os passageiros (dentre eles, o dono do avião), o que iriam pensar? Foi difícil, muito difícil mesmo, não ser complacente. E nem preciso dizer que não aconteceu nada de errado, o avião foi e voltou sem nenhum problema, e o chato e neurótico da história fui eu, né?

É por isso que não dá para criticar a complacência do copiloto no caso da LaMia. Eu sei como é desagradável e complicado contradizer um comandante num caso como aquele – mesmo que não se precise do emprego, do salário, das horas de voo. Os custos de um confronto deste tipo são principalmente emocionais, na verdade… Mas a outra opção – arriscar a própria vida – é muito pior. Não sei como fazer para, na prática, vencer a força que nos atrai para a complacência. No caso narrado acima, o fato de estar com filho recém-nascido em casa ajudou muito (não sei se faria o mesmo em outo contexto). Mas que este é um assunto muito bom para ser explorado pelos especialistas em fatores humanos na aviação, não tenho dúvidas!

5 comments

  1. Pacelli Francesco
    3 meses ago

    Excelente tema levantado Raul. Deveria ser discutido muito mais como instrução do que como punição como vem sendo noticiado.

  2. Anderson
    3 meses ago

    Muito bom o texto!
    Parabéns Raul!

  3. Pilot
    3 meses ago

    Segundo os comissários, o combinado era que a escala para reabastecer seria realizada. E ficaram sem saber o pq da demora, sem informações das mudanças de plano dos pilotos. Com isso, já se pode ter uma leve ideia do CRM adotado, ou a falta dele…

    • Raul Marinho
      3 meses ago

      Pois é, pode ser mesmo que os comissários estivessem alheios ao gerenciamento de combustível efetuado pelo cmte. Mas o copiloto, com liquidômetro na frente e com um mínimo de consciência situacional da navegação, não tem como não saber das intenções do cmte…

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