O resultado da pesquisa “Segurança do Voo X Pressão Psicológica Exercida sobre o Piloto”

O resultado da pesquisa “Segurança do Voo X Pressão Psicológica Exercida sobre o Piloto”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Em março do ano passado, publiquei um post convidando os leitores a participar da pesquisa “Segurança do Voo X Pressão Psicológica Exercida sobre o Piloto”, que a Cmte. Nathália Manso estava realizando no âmbito de sua graduação em Ciências Aeronáuticas pela PUC-GO. 102 pilotos da aviação geral responderam, e o resultado deu origem ao artigo “A Representação Social dos Aspectos Comportamentais e Legais na Aviação Geral”, de autoria da própria Cmte. Nathália e do Prof. Dr. Humberto César Machado, também da PUC-GO, publicado na revista Conexão SIPAER. A seguir, um breve resumo do artigo, que trata exclusivamente do segmento da aviação particular/”91″ operada por pilotos profissionais.

O primeiro foco do estudo foi avaliar se, na opinião dos pilotos, os “patrões” (os próprios proprietários/operadores das aeronaves ou algum preposto responsável pela operação) exerciam algum tipo de pressão psicológica para, de algum modo, fazer com que os pilotos tomassem decisões contrárias à sua vontade. O resultado está no “gráfico 5” abaixo reproduzido:

graf5

Depois, o artigo apresenta dois outros gráficos (n°6 e n°7), onde se apresentam escalas de percepção da ameaça (o quanto estes pilotos se sentem ameaçados pela pressão dos “patrões”) e de quanto os profissionais acreditam estarem preparados para lidar com tal situação. Numa escala de 1 a 7 – respectivamente, do  “muito ameaçado” ao “muito seguro”; e do “nem um pouco preparado” ao “muito preparado” -, os valores obtidos são intermediários (4,1 e 4,5), sem apresentar um viés significativo.

Então, o trabalho apresenta uma outra metodologia que, na minha opinião, é sua parte mais interessante. Os pilotos pesquisados são solicitados a escrever livremente cinco palavras que lhes vêm à mente quando indagados sobre a expressão “Pressão Psicológica sobre Piloto”. As respostas são tabuladas como uma pesquisa do tipo “top of mind” ou “top of list“, ou seja: “aquilo que é prontamente lembrado ou evocado como mais importante do objeto a ser analisado” – o que é dito e em que ordem o termo aparece. O resultado – isto é: os termos de livre associação que aparecem no “top of mind” para os pilotos profissionais da aviação geral – foram:

  • Patrão
  • Meteorologia
  • Horário
  • Perder o emprego
  • Segurança

O que, segundo os autores do trabalho, tem o seguinte significado imediato:

Uma característica a ser observada é a homogeneidade desse universo, haja vista que as palavras evocadas como mais significativas atribuem a pressão psicológica exercida sobre o piloto especialmente ao patrão e à meteorologia, o que leva o leitor a acreditar que o patrão realmente utiliza sua autoridade para coagir seus pilotos a voarem em quaisquer condições, em especial a condição meteorológica adversa.

Conclusões do estudo (principais trechos)

Os dados coletados indicam que a aviação geral tem uma predominância de profissionais considerados novos em relação à idade, com pouco tempo de atuação nessa área e inexperientes em razão da quantidade de horas de voo. Este cenário contempla pontos negativos e positivos. Negativos no sentido de que os aviadores recém-formados buscam ansiosamente por um emprego, submetendo-se a quaisquer condições de trabalho para ingressar neste mercado exigente e competitivo, desconsideram seu julgamento técnico e tomam decisões que comprometem a responsabilidade que lhes foi delegada pelo CBA a fim de garantir sua empregabilidade. O lado positivo consiste em um profissional sem vícios nas operações, o que para um empregador é mais vantajoso, pois ele pode ser moldado de acordo com suas necessidades.

(…)

No que diz respeito ao comportamento indesejável do patrão e/ou supervisor imediato no ambiente laboral, os resultados apontam um dado preocupante: oitenta e oito por cento (88%) dos entrevistados conhecem algum caso em que o empregador fez pressão e o piloto cedeu contra sua vontade, por se sentir ameaçado. Normalmente o fato confirmado se refere a ele próprio. Este dado comprova que alguns pilotos, na figura de comandantes, não estão cumprindo as responsabilidades que lhes foram atribuídas a fim de resguardar sua empregabilidade. Isso se deve ao fato de não haver nenhuma norma que assegure o seu emprego frente a este conflito potencial.

(…)

Com o objetivo de minimizar as consequências desse comportamento, recomenda-se que seja oferecido um curso de segurança operacional voltado especificamente para os proprietários de aviões e ministrado pelos órgãos reguladores e fiscalizadores da aviação. Tal curso deve ser considerado um pré-requisito para aquisição de aeronave e deve possuir validade, promovendo sua reciclagem. Da mesma forma, voltado para o piloto, recomenda-se que os cursos de formação trabalhem as habilidades sociais, assim como a assertividade, preparando o profissional para defender seus direitos pessoais, expressar sentimentos, pensamentos e crenças de forma honesta, apropriada e direta, sem violar os direitos do outro, propiciando uma melhoria nas relações pessoais, bem como uma realização pessoal e profissional.

(…)

Levando em consideração os aspectos analisados, faz-se necessária uma conscientização da comunidade aeronáutica, em especial dos proprietários de aeronaves, visto que na maioria das vezes eles não possuem conhecimento técnico na área. Tal conscientização deve abordar as responsabilidades e autoridade do piloto e sua importância para a segurança do voo, as consequências da operação em condições meteorológicas adversas, os prejuízos financeiros e humanos de uma manutenção inadequada, bem como as situações cotidianas. Desse modo, busca-se reduzir o índice de pilotos que cedem à pressão patronal e, assim, contribuir para um espaço aéreo mais seguro.

2 comments

  1. Enfim, falta “Ser” !
    Não somente, “Parecer” !
    Patrões não vão mudar.
    Quem tem que mudar são os “Comandantes”.
    Temos que mudar, ao ponto de transformar a pressão do Patrão em algo feio, que pegue muito mal, tipo uma “Gafe”.

    • Pacelli Francesco
      11 meses ago

      O comandante disse tudo, bom seria um curso para proprietários mas vejo isso tão longe que acho que a mudança parte primeiro do Comandante, saber o seu limite, e não ter medo de dizer NÃO, e sim orgulho de prezar pela segurança de todos.

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