Ideias ao Vento #3 – Comercial vs Executiva

Ideias ao Vento #3 – Comercial vs Executiva

By: Author Daniel TorelliPosted on
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“Comercial ou executiva”? Esta é uma das perguntas mais repetidas nas rodas de conversa de DO’s e portas de hangar, e provoca as mais diversas reações e opiniões sobre o tema. Eu gosto muito de uma frase repetida pelo meu amigo Jerd Amir, que construiu sua carreira na Varig, onde foi checador de 767, e depois foi para aviação executiva continuar a rodar o mundo em um ambiente diferente. Ele diz: “aviação comercial é legal, mas é ruim; e aviação executiva é ruim, mas é legal” – talvez não exatamente nessas palavras…

Pessoalmente, vivi os dois mundos: entrei novo na Rio Sul, depois de ter voado um pouco os aviões leves na aviação geral. Com o encerramento das operações do Grupo Varig, o destino me levou a seguir minha carreira na aviação executiva. Minha experiência de transição foi complicada no começo: migrar da única e exclusiva preocupação com os dados da operação e a execução do voo dentro dos standards da empresa para um cenário onde se participa de todo o processo de planejamento do voo, da relação com passageiro e do alinhamento da logística de apoio.

Não dá para afirmar claramente o que é melhor nem o que é mais difícil. Em cada uma das atividades existem desafios diferentes que exigem aptidões diferentes do profissional. Por isso, na minha opinião existem perfis que se adaptam melhor a cada uma das atividades. Alguns conseguem transitar bem nos dois universos e existem vários ótimos exemplos disso – mas, definitivamente, não são todos.

É muito comum ouvir de alguns colegas da comercial que “os pilotos da executiva são todos peladeiros”. Este tipo de preconceito não é crime, mas também não é justo, pois existem bons e maus profissionais nestes dois mundos. Já entre alguns pilotos da executiva existe uma negação sobre as capacidades de pilotos da aviação comercial, duvidando da flexibilidade dos mesmos para cumprir as tarefas de planejamento dos voos, carregar um bagageiro, servir um passageiro ou fazer a limpeza interna do avião após o voo. Mais uma vez não dá para generalizar: existe gente na comercial que se incomodaria muito em cumprir essas tarefas, mas conheço gente que faria isso se divertindo.

Outro ponto que é importante lembrar é que muitas vezes não somos integralmente donos de nossos destinos. Durante a carreira, as portas se abrem (ou se fecham) nos levando em uma determinada direção. Nesses caminhos da vida, vários pilotos seguiram com boas oportunidades da executiva e nunca migraram para a comercial, pois quando estariam prontos o mercado de contratações na comercial se fechou, e aí seguiram a vida na executiva. Na verdade, uma vez na comercial, tomar a decisão de sair é muito difícil, pois existe uma cultura de carreira, uma lista de antiguidade/senioridade, e muitas vezes há barreiras para o retorno. Isso tudo freia um pouco o ímpeto de olhar para o mercado do outro lado da pista.

Uma reflexão que acho importante se fazer é que na aviação comercial há uma cultura corporativa em que todos entendem a função e a necessidade de cada elemento da operação aérea – o avião, o piloto, o voo, a manutenção, etc. – todos são parte do negócio e todos falam “avionês”. Na aviação executiva, o avião normalmente é um apêndice do negócio, uma ferramenta de conveniência para a empresa e os executivos. Por vezes, a estrutura da empresa não entende muito bem as questões legais e operacionais da operação aeronáutica, que pode estar sujeita a interferências se o piloto não entender este processo e não souber lidar com o problema.

Outro ponto é que na comercial o avião é o negócio da empresa, assim ele precisa existir para haver negócio. A carreira mudou nos últimos anos, ciclos econômicos mais curtos, fusões/aquisições, quebradeira de algumas empresas – além das oportunidades fora do Brasil fizeram a dança das cadeiras na comercial ser um pouco mais agitada. Na executiva, isso é diferente, uma crise ou mesmo a troca de executivos pode virar de cabeça para baixo a vida da equipe de aviação de um dia para outro literalmente: isto fez parte do cotidiano de muitos aviadores, por isso ter plano de contingência na gaveta é fundamental.

Ouvi uma vez do Cmte. Rui, que foi da FAB, voou na Vasp muitos anos, e depois foi para a executiva, a seguinte frase: “Aviação executiva é para começo e final de carreira”. Este é um ponto de vista interessante que pode servir para muitos, mas não se encaixa a todos, definitivamente.

O importante é ser realizado no que se faz, sem ficar olhando muito a grama do vizinho. Não existe um perfil uniforme: somos diferentes por essência, e reagimos de formas diferentes aos ambientes em que estamos inseridos. Então, não rotule e julgue o outro, siga sua proa. Ninguém sabe o dia de amanhã, onde estaremos voando, e podemos ter que repensar nossas ideias pré-concebidas.

8 comments

  1. Fabio Freitas
    1 hora ago

    Torelli, excelente texto !!!

  2. Daniel Pfister
    3 dias ago

    Uma vez lhe fiz essa pergunta, sua resposta foi: “voe na comercial por ao menos dois anos. O primeiro será tudo novo, já o segundo você irá ganhar maturidade, só então tome a decisão de ir para uma executiva.”
    Então depois de dois anos quando conversamos novamente sobre a executiva, outra frase me marcou:”… a única certeza da executiva é que amanhã você pode estar desempregado.”

  3. Adriano/Bodyguard
    3 dias ago

    Parabéns Daniel, apesar de não ser minha área, mas conheço vc e pude entender tudo.
    Forte abraço

  4. Cristiano Milhomem
    3 dias ago

    Texto perfeito, explicou bem demais, e a conclusão então, foi ápice! Parabéns!

  5. Bruno Tuono
    3 dias ago

    Ótimo texto Torelli! Parabéns pela coluna.

    Grande abraço!

  6. Jerd
    3 dias ago

    Texto excelente!!! Traduz exatamente como são as duas aviações de forma simples e objetiva!!!

  7. Beto Arcaro
    3 dias ago

    Daniel,
    Texto perfeito !
    Definiu muito bem.
    Não tenho o que acrescentar.
    Abraço.

  8. Luiz César
    3 dias ago

    Muito legal a reflexão! A frase do cmte. Jerd, seu amigo, é na verdade uma adaptação da comparação do Tom Jobim entre Nova York e Rio de Janeiro.

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